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Infância e adolescência

Adolescente não quer terapia: como abordar sem forçar

Comece por saber que isso é a regra, não a exceção. A literatura internacional indica que entre 50% e 75% dos jovens encaminhados para tratamento em saúde...

Equipe Pratimed22 de agosto de 202615 min de leitura
Adolescente não quer terapia: como abordar sem forçar
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Comece por saber que isso é a regra, não a exceção.

A literatura internacional indica que entre 50% e 75% dos jovens encaminhados para tratamento em saúde mental não iniciam ou não completam o curso completo do tratamento, e que cerca de metade dos que chegam a começar abandonam antes do fim.

Sobre esses números: o primeiro vem de um estudo americano de 1990, e o segundo de uma meta-análise de 2013 — ambos lidos por meio de citação em outros artigos, e nenhum deles é brasileiro. Servem para uma coisa: não é só o seu filho.

E há uma segunda informação, mais útil, vinda de um estudo com jovens que entraram na terapia relutantemente, por iniciativa de adultos: o que separou quem desistiu rápido de quem persistiu não foi o ponto de partida — foi como o terapeuta os recebeu.


Resumo direto

  • Recusa é comum: metade a três quartos dos jovens encaminhados não inicia ou não completa.
  • O fator que mais ajudou a engajar foi o terapeuta se mostrar autêntico e se interessar por quem o adolescente era como pessoa.
  • A barreira presente em todas as trajetórias foram as ideias prévias do adolescente sobre terapia — de amigos e da internet.
  • Metade das condições de saúde mental começa aos 14 anos, e a maioria não é detectada nem tratada.
  • O Código de Ética exige autorização de ao menos um responsável para atendimento não eventual.
  • Aos responsáveis é comunicado apenas o estritamente essencial.

Sumário


Por que ele recusa

Antes de tratar a recusa como birra, vale considerar o que a pesquisa aponta.

Estigma. A OMS/OPAS afirma que a estigmatização é uma das razões pelas quais adolescentes com condições de saúde mental não procuram ajuda, e lista o estigma entre os fatores que os tornam vulneráveis à exclusão social e a dificuldades de aprendizado.

Ideias prévias. No estudo com jovens levados à terapia por adultos, o obstáculo estrutural presente em todas as trajetórias foram as ideias prévias sobre serviços de saúde mental e terapeutas — formadas por más experiências de amigos ou por informações da internet.

Ou seja: seu filho provavelmente já tem uma imagem do que é terapia, e ela não veio de você.

Perda de controle. Adolescência é o período de construção de autonomia. Ser levado a algum lugar, por decisão de outra pessoa, para falar de si mesmo, colide de frente com isso.

Medo de que você saiba de tudo. Uma das objeções mais comuns e menos ditas em voz alta. Ela tem resposta concreta, mais adiante.

Experiências ruins reais. A mesma pesquisa mostra que elas existem e são legítimas. Nem toda recusa é resistência: às vezes é memória.


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O que a pesquisa mostra sobre engajamento

O estudo mais útil aqui é qualitativo, norueguês, com 12 jovens (11 meninas), de 15 a 19 anos na entrevista, que tiveram o primeiro contato com serviço de saúde mental entre os 6 e os 15 anos. Foram 18 entrevistas.

Escala: amostra pequena, um país só. Não é estatística — é descrição de mecanismo. E é justamente o mecanismo que interessa aqui.

Três trajetórias foram identificadas:

TrajetóriaParticipantes
"Nunca vi sentido — ser tratado como um caso"2
"Eu tentei, mas não deu em nada"7
"Alguma coisa boa saiu disso"8

(A soma passa de 12 porque alguns participantes tiveram mais de um período de tratamento.)

O fator que mais ajudou a engajar, presente nas três trajetórias: o terapeuta se mostrar autêntico, deixar ver quem era como pessoa, e se interessar por quem o adolescente era como pessoa — não como caso.

Um detalhe concreto que os adolescentes relataram: o hábito do terapeuta de anotar durante a sessão e responder mecanicamente reforçava a sensação de que ele estava apenas cumprindo tabela, tornando mais difícil se abrir.

Contexto necessário: registro em prontuário é obrigação ética do psicólogo, não descuido. Mas é uma percepção real do adolescente, e um profissional atento a isso pode simplesmente explicar o que está anotando e por quê.

A conclusão prática: se não engatou com um profissional, trocar não é fracasso. O ponto de partida não determinou o desfecho — a relação determinou.


O que não fazer

Não marque sem avisar. Levar o filho a uma consulta sem que ele saiba destrói a confiança e confirma exatamente o medo dele de não ter controle.

Não use como punição. "Se você não melhorar esse comportamento, vai para o psicólogo" transforma o cuidado em castigo.

Não apresente como conserto. "Você precisa de ajuda" e "tem alguma coisa errada com você" empurram para a defesa.

Não faça disso uma queda de braço diária. Insistência diária costuma consolidar a recusa como posição identitária.

Não fale mal do que ele acha. "Isso é besteira que você viu na internet" fecha a conversa. Se as ideias prévias são a barreira principal, o caminho é examiná-las, não desqualificá-las.

Não prometa sigilo total. Você não controla isso, e a regra ética é mais sutil do que "o psicólogo nunca conta nada".


Como abordar: o roteiro

1. Escolha o momento. Não durante ou logo após uma briga. Momentos laterais funcionam melhor — no carro, cozinhando, caminhando. Sem contato visual forçado.

2. Fale do que você observa, não do que você conclui. "Percebi que você tem dormido pouco e quase não sai mais com seus amigos" é diferente de "você está deprimido".

3. Diga o que você quer, sem rótulo. "Eu queria que você tivesse um espaço seu para falar do que quiser, com alguém que não sou eu."

4. Reconheça a objeção antes que ela venha. "Sei que você pode achar que eu vou ficar sabendo de tudo. Não é assim, e a gente pode combinar isso com o profissional na primeira conversa."

5. Ofereça controle sobre o que der. Escolher entre dois ou três profissionais. Escolher o horário. Escolher online ou presencial. Escolher fazer uma sessão e depois decidir.

6. Proponha um teste, não um compromisso. "Vai a uma. Se não quiser voltar, a gente conversa." Isso costuma funcionar porque devolve o poder de decisão.

7. Deixe a porta aberta se ele recusar. "Tudo bem. A oferta continua de pé. Se mudar de ideia, é só falar." E então não repita no dia seguinte.

8. Vá você. Esta é a mais subestimada. Você conversar com um profissional sobre como lidar com a situação é útil por si só — e frequentemente muda a dinâmica em casa sem que o adolescente precise ir a lugar nenhum.


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Respostas para as objeções mais comuns

"Eu não sou louco." "Terapia não é para quem é louco. É para quem quer um lugar para pensar em voz alta. Muita gente que você conhece faz."

"Eu não preciso, estou bem." "Talvez esteja mesmo. Eu percebi algumas coisas e queria que você tivesse esse espaço — não porque acho que você está mal, mas porque acho que ajuda."

"Você vai ficar sabendo de tudo." "Não. O que o profissional conta para mim é só o que for essencial para te ajudar. A gente pode combinar isso com ele, na frente de você, na primeira sessão."

"Eu já fui e não adiantou." "Faz sentido não querer repetir. Só que não engatar com uma pessoa não significa que não engate com outra. Você quer escolher desta vez?"

"Eu falo com meus amigos." "Ótimo, e isso é importante. Mas seus amigos não têm formação, e às vezes eles precisam de você tanto quanto você deles."

"É caro / você não tem tempo." "Isso é problema meu, não seu. Já resolvi."


O que dizer ao próprio adolescente

Se você tem entre 13 e 18 anos e chegou até aqui — provavelmente porque alguém quer que você faça terapia:

Você não precisa estar em crise para ir. A maioria das pessoas vai por coisas que parecem pequenas quando ditas em voz alta.

Você não precisa falar de nada que não queira. Isso vale desde a primeira sessão. Silêncio é aceitável.

Você não é obrigado a gostar do primeiro profissional. No estudo citado acima, o que determinou o desfecho não foi o quanto o jovem estava disposto no começo — foi se o terapeuta o tratou como pessoa ou como caso. Se não rolar, dá para trocar.

Sobre o que seus pais vão saber: a norma profissional é que a eles seja comunicado apenas o estritamente essencial para tomar medidas em seu benefício. Não é "eles vão saber tudo" nem "eles nunca vão saber nada" — e você pode perguntar exatamente como funciona logo na primeira sessão.

Se você está pensando em se machucar ou em morrer, fale com alguém hoje. CVV 188, telefone gratuito, 24 horas. Ninguém vai te julgar por isso.


Sigilo: o que os pais podem e não podem saber

A pergunta que os dois lados fazem, com respostas opostas na cabeça.

A regra central: o Código de Ética do Psicólogo determina que, no atendimento a criança ou adolescente, seja comunicado aos responsáveis apenas o estritamente essencial para se promoverem medidas em seu benefício.

Não é sigilo absoluto, e não é transparência total. É um critério — e quem julga é o profissional.

Sobre quebra de sigilo: o Código prevê que o sigilo pode ser quebrado quando houver conflito com os princípios fundamentais, com a decisão baseada na busca do menor prejuízo, e que, nesse caso, o psicólogo deve se restringir a prestar as informações estritamente necessárias.

Repare que não é uma regra automática. É decisão fundamentada, caso a caso.

Sobre participação dos responsáveis: há resolução do CFP determinando que, ao prestar psicoterapia a criança e adolescente, o psicólogo proponha a participação dos responsáveis no acompanhamento do processo e os acione sempre que necessário, garantindo ao mesmo tempo o sigilo e a preservação da intimidade de quem é atendido. (Lemos esse trecho em compilador de legislação, não no documento oficial do CFP — confirme com o profissional ou com o CRP da sua região.)

O que fazer com isso na prática: combine na primeira sessão, com todos presentes, o que será compartilhado e como. Isso resolve a insegurança dos dois lados de uma vez.


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Autorização, guarda compartilhada e prontuário

Autorização. O Código de Ética exige autorização de ao menos um responsável para atendimento não eventual de criança ou adolescente. E prevê expressamente que, se nenhum responsável se apresentar, o atendimento deve ser feito e comunicado às autoridades competentes.

Precisão importante: essa segunda regra trata da ausência de responsável — não da recusa de um deles. Não é base para dizer que "adolescente pode fazer terapia sem os pais".

Guarda compartilhada. Orientação de um Conselho Regional de Psicologia registra que não há exigência legal expressa de autorização de ambos os responsáveis para iniciar o atendimento, embora se recomende buscar a autorização conjunta sempre que possível. É orientação de um CRP regional, não do CFP — consulte o CRP da sua região.

Prontuário. O responsável legal tem direito de acesso ao prontuário psicológico do filho, mas não ao registro documental de uso exclusivo do profissional. Lemos essa interpretação em material de CRP regional, não no texto das resoluções — confirme antes de se orientar por isso.

O princípio de fundo, que atravessa tudo: o ECA garante ao adolescente o direito de ser ouvido e de participar da definição de medidas que lhe dizem respeito, respeitados o estágio de desenvolvimento e a capacidade de compreensão — inclusive em separado dos pais. (O dispositivo trata de medidas de proteção definidas por autoridade judiciária, não de contratação de psicoterapia particular; vale como fundamento do princípio da autonomia progressiva, não como regra de consultório.)


Quando não dá para esperar

Todo o roteiro acima pressupõe que há tempo. Nem sempre há.

Procure avaliação com urgência, mesmo sem a concordância do adolescente, se:

  • Ele falou em morrer, em sumir, ou em não querer mais estar aqui.
  • Há marcas de autolesão.
  • Ele se isolou de forma acentuada e parou de fazer o que gostava.
  • Houve mudança abrupta e persistente de sono, apetite ou humor.
  • Há uso de álcool ou outras substâncias de forma preocupante.
  • Alguém da escola ou da família demonstrou preocupação séria.

Canais:

  • CVV 188 — telefone gratuito, 24 horas.
  • SAMU 192 — emergência.
  • CAPS Infantojuvenil (CAPSi) mais próximo, pela rede pública.
  • Pronto-socorro, em risco imediato.

Sobre esse cenário especificamente, veja Adolescente em crise: automutilação, falas sobre morrer e o que fazer agora.

Um dado que justifica não adiar: segundo a OMS/OPAS, metade de todas as condições de saúde mental começa aos 14 anos — mas a maioria dos casos não é detectada nem tratada. E as condições de saúde mental respondem por 16% da carga global de doenças e lesões entre 10 e 19 anos.

Isso não significa patologizar a adolescência. A própria OPAS destaca a importância de evitar a institucionalização e a medicalização excessiva. Significa que sinais persistentes merecem avaliação, e não "vai passar".


Perguntas frequentes

Meu filho adolescente não quer fazer terapia. O que fazer?

Recusa é comum: a literatura internacional indica que entre 50% e 75% dos jovens encaminhados não iniciam ou não completam o tratamento. O que funciona melhor é falar do que você observa (não do que conclui), oferecer controle sobre o que for possível — escolher o profissional, o horário, o formato —, propor uma sessão de teste em vez de um compromisso, e deixar a porta aberta sem repetir a cobrança diariamente.

Fora de situações de risco, forçar tende a consolidar a recusa. A exceção é clara: se há falas sobre morrer, marcas de autolesão ou mudança abrupta e persistente de comportamento, procure avaliação com urgência mesmo sem a concordância dele.

O psicólogo conta aos pais o que o adolescente fala?

O Código de Ética determina que seja comunicado aos responsáveis apenas o estritamente essencial para se promoverem medidas em benefício do atendido. Não é sigilo absoluto nem transparência total — o critério é do profissional. O melhor caminho é combinar isso na primeira sessão, com todos presentes.

Precisa da autorização dos dois pais?

O Código de Ética exige autorização de ao menos um responsável para atendimento não eventual. Orientação de Conselho Regional registra que não há exigência legal expressa de autorização de ambos em guarda compartilhada, embora se recomende buscar a autorização conjunta quando possível. Consulte o CRP da sua região.

Ele já foi e não gostou. Vale tentar de novo?

Vale. Num estudo com jovens que entraram na terapia por iniciativa de adultos, o que separou quem desistiu de quem persistiu não foi o ponto de partida, e sim como o terapeuta os recebeu — sobretudo se ele se mostrou autêntico e se interessou por quem eles eram como pessoas. Trocar de profissional não é fracasso.

E se ele continuar recusando?

Vá você. Conversar com um profissional sobre como lidar com a situação ajuda por si só e frequentemente muda a dinâmica em casa — sem que o adolescente precise ir a lugar nenhum no primeiro momento.


Quer entender melhor seus padrões?

Um psicólogo pode te ajudar a transformar autoconhecimento em mudança prática.

Leia também


Fontes: Stige SH, Barca T, Lavik KO, Moltu C — "Barriers and Facilitators in Adolescent Psychotherapy Initiated by Adults", Frontiers in Psychology, 2021;12:633663 · de Haan AM et al. — Clinical Psychology Review, 2013;33(5):698-711 (citado em Stige et al.) · Kazdin AE, Siegel TC, Bass D, 1990 (citado em PMC2885699) · Conselho Federal de Psicologia — Código de Ética Profissional do Psicólogo (Resolução CFP nº 10/2005), arts. 8º, 9º, 10 e 13; Resolução CFP nº 013/2022; Resolução CFP nº 01/2009 · Conselho Regional de Psicologia de Santa Catarina (CRP-12) — orientação "Atendimento a Crianças, Adolescentes e suas Famílias" · Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei nº 8.069/1990, arts. 13 e 100 · OPAS/OMS — "Saúde mental dos adolescentes".

Este conteúdo é informativo, não fecha diagnóstico e não substitui avaliação profissional. Em sofrimento intenso, CVV 188 (telefone, 24h) · Emergência, SAMU 192.

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