Comece por uma correção que quase todo conteúdo em português erra.
O quarto estilo de apego adulto não se chama "desorganizado". Chama-se temeroso-evitativo. "Desorganizado/desorientado" é uma categoria infantil, acrescentada por Mary Main e Judith Solomon em 1986/1990 à Situação Estranha de Ainsworth — e ela não faz parte do modelo de apego adulto.
Se você aprendeu diferente, não foi culpa sua: o erro está em quase toda a primeira página do Google em português. Mas vale corrigir, porque a confusão entre uma categoria observacional de bebês e um estilo de relacionamento adulto muda o que o rótulo significa sobre você.
Resumo direto
- Os quatro estilos adultos são seguro, preocupado, temeroso-evitativo e desdenhoso-evitativo (Bartholomew e Horowitz, 1991).
- Eles nascem do cruzamento de dois eixos: imagem de si (positiva/negativa) × imagem dos outros (positiva/negativa).
- O modelo anterior, de três categorias, é de Hazan e Shaver (1987). O de quatro desdobra o evitativo em dois.
- A pesquisa contemporânea trata apego como duas dimensões contínuas — ansiedade e evitação —, não como quatro caixas.
- Não existe teste de apego para você fazer sozinho. No Brasil, a aplicação profissional de testes psicológicos é privativa do psicólogo (Resolução CFP nº 31/2022).
- Estilo de apego não é fixo, nem volátil: a estabilidade ao longo de 10 anos gira em torno de r=0,50 na vida adulta.
Sumário
- De onde vêm os quatro estilos
- Os quatro estilos, um a um
- O que cada estilo faz em quatro situações
- Por que "quatro tipos" é um atalho, não a realidade
- Quantas pessoas têm cada estilo?
- "Como descobrir o meu?"
- Apego muda?
- O mito do "foi minha mãe"
- Quando vale procurar ajuda
- Perguntas frequentes
- Leia também
De onde vêm os quatro estilos
A linhagem é curta e vale conhecer, porque ela explica o erro do "desorganizado".
Bowlby (1973) propôs que cada pessoa carrega dois modelos internos de funcionamento: um sobre si mesma e outro sobre os outros.
Ainsworth desenvolveu a Situação Estranha e descreveu três padrões em bebês. Main e Solomon (1986/1990) acrescentaram o quarto padrão infantil: desorganizado/desorientado.
Hazan e Shaver (1987) transpuseram as três categorias infantis para o vínculo adulto: seguro, evitativo e ansioso/ambivalente.
Bartholomew e Horowitz (1991) propuseram o modelo de quatro categorias adultas, cruzando os dois modelos internos de Bowlby. O quarto estilo adulto surge do desdobramento do evitativo em dois — não da importação do "desorganizado" infantil.
| Modelo | Ano | Categorias |
|---|---|---|
| Ainsworth (bebês) | anos 1970 | 3 padrões |
| Main & Solomon (bebês) | 1986/1990 | + desorganizado = 4 |
| Hazan & Shaver (adultos) | 1987 | seguro, evitativo, ansioso/ambivalente |
| Bartholomew & Horowitz (adultos) | 1991 | seguro, preocupado, temeroso-evitativo, desdenhoso-evitativo |
Quer entender melhor seus padrões?
Um psicólogo pode te ajudar a transformar autoconhecimento em mudança prática.
Os quatro estilos, um a um
O modelo de 1991 é uma tabela 2×2: como você vê a si mesmo × como você vê os outros.
| Imagem positiva dos outros | Imagem negativa dos outros | |
|---|---|---|
| Imagem positiva de si | Seguro | Desdenhoso-evitativo |
| Imagem negativa de si | Preocupado | Temeroso-evitativo |
Seguro. Confortável com proximidade e com autonomia. Não precisa de garantia constante nem se sente invadido por ela.
Preocupado (o que a internet costuma chamar de "ansioso"). Imagem positiva do outro, negativa de si. A busca por proximidade é intensa, e o valor próprio parece depender da resposta que vem.
Desdenhoso-evitativo. Imagem positiva de si, negativa dos outros. Autossuficiência declarada, desconforto com depender de alguém. Costuma parecer indiferença — e nem sempre é.
Temeroso-evitativo. Imagem negativa de si e dos outros. Quer proximidade e a teme ao mesmo tempo. É o estilo que mais gera a sensação de "aproximo e fujo".
Nenhum desses é diagnóstico. São descrições de pesquisa, não categorias clínicas, e ninguém deveria se rotular a partir de um texto de blog — este inclusive.
O que cada estilo faz em quatro situações
Descrições típicas da literatura sobre os dois eixos, não regras. Muita gente se reconhece em mais de uma coluna — o que é esperado, pela razão explicada na próxima seção.
| Situação | Seguro | Preocupado | Desdenhoso | Temeroso |
|---|---|---|---|---|
| Uma briga | Fala o que sentiu, aceita reparo | Insiste em resolver agora, teme que acabe | Encerra o assunto, minimiza | Explode e depois se fecha |
| O outro fica em silêncio | Pergunta, tolera esperar | Preenche o silêncio com hipóteses ruins | Sente alívio | Alterna entre cobrar e sumir |
| Um término | Sofre e se reorganiza | Busca contato, revisa cada detalhe | Segue em frente rápido — às vezes rápido demais | Quer voltar e teme voltar |
| O outro pede espaço | Combina como e por quanto tempo | Lê como abandono | Concede sem negociar retorno | Concede por fora, entra em pânico por dentro |
Por que "quatro tipos" é um atalho, não a realidade
Este é o ponto que a maioria dos conteúdos omite, e ele muda tudo.
A pesquisa contemporânea não trabalha com quatro caixas. Trabalha com duas dimensões contínuas:
- Ansiedade de apego — o quanto a pessoa se sente insegura sobre a disponibilidade e a responsividade do outro.
- Evitação de apego — o quanto se sente desconfortável em se abrir, depender e usar o outro como base segura.
Estudos taxométricos indicam que os padrões de apego se distribuem continuamente, tanto na infância quanto na vida adulta. Ou seja: não existe uma fronteira natural entre "ansioso" e "seguro" — existe mais ou menos ansiedade, mais ou menos evitação.
Os quatro tipos são os quatro cantos desse plano. Servem como atalho didático. Falar deles como se fossem categorias fechadas contraria a literatura atual.
Na prática, isso explica por que você se reconheceu em três das quatro descrições acima: porque você não é uma caixa, é um par de coordenadas.
Quer entender melhor seus padrões?
Um psicólogo pode te ajudar a transformar autoconhecimento em mudança prática.
Quantas pessoas têm cada estilo?
Os números circulam muito sem contexto, e o contexto muda o valor deles.
| Fonte | Distribuição | O que é a amostra |
|---|---|---|
| Hazan & Shaver, 1987 | 56% seguro · 25% evitativo · 19% ansioso/ambivalente | Questionário publicado num jornal (Rocky Mountain News), respondido espontaneamente; análise das primeiras 620 de mais de 1.200 respostas |
| Mickelson, Kessler & Shaver, 1997 | 59% seguro · 25% evitativo · 11% ansioso | Amostra nacionalmente representativa de adultos americanos — a melhor estimativa populacional disponível |
| Bakermans-Kranenburg & van IJzendoorn, 2009 | 58% seguro · 23% desdenhoso · 19% preocupado | Medido por entrevista clínica (AAI), em mães norte-americanas não clínicas |
Três leituras necessárias:
São dados americanos. Nenhum deles é brasileiro.
A distribuição mais citada é a mais frágil. Os 56/25/19 vêm de leitores de jornal que se voluntariaram a responder em 1987. Não é estatística populacional.
Os percentuais de 1997 somam 95%, não 100% — não cobrem toda a população.
Um dado à parte, que dá dimensão ao campo: desde 1985, mais de 26 mil Adult Attachment Interviews já foram aplicadas, codificadas e publicadas — o equivalente a cerca de 170 anos-pessoa de trabalho.
"Como descobrir o meu?"
A resposta honesta contraria o formato que você provavelmente esperava encontrar.
Não publicamos quiz de apego, e há uma razão regulatória. No Brasil, o uso profissional de testes psicológicos é privativo do psicólogo (Lei 4.119/1962, art. 13), e usar teste com parecer desfavorável ou não avaliado pelo SATEPSI é considerado falta ética pelo Conselho Federal de Psicologia (Resolução CFP nº 31/2022, art. 8º). O próprio CFP declara atuar contra sites que divulgam testes psicológicos indevidamente.
Um quiz de blog não é teste psicológico. Não tem norma, não tem ponto de corte, e o resultado não significa nada clinicamente.
Existe instrumento brasileiro — de pesquisa. A ECR-R-Brasil tem evidências de validade para a população brasileira, construída com respostas de 4.879 adultos das cinco regiões do país. A versão final tem 10 itens: cinco de ansiedade e cinco de evitação. (A ECR original tem 36 itens; a versão reduzida de Wei e colaboradores, de 2007, tem 12.)
Repare no que ela mede: dimensões, não tipos. Ansiedade — preocupação com a responsividade do parceiro e a estabilidade da relação. Evitação — desconforto com proximidade emocional e preferência por distanciamento.
Não reproduzimos os itens aqui, pelo mesmo motivo acima.
O que dá para fazer sozinho, então? Observar-se nos dois eixos, sem se rotular:
- Quando você não recebe resposta, você tende a interpretar como ameaça ao vínculo? (eixo ansiedade)
- Quando alguém se aproxima muito, você tende a criar distância? (eixo evitação)
As respostas não te classificam. Servem para você levar algo concreto a uma conversa com um profissional.
Uma nota de honestidade: não conseguimos confirmar se existe versão da Adult Attachment Interview validada para o Brasil, nem consultar a lista atual de instrumentos aprovados no SATEPSI. Então não afirmamos nada nesse ponto.
Apego muda?
Nem fixo, nem volátil.
A estabilidade teste-reteste ao longo de 10 anos é de cerca de r=0,50 na vida adulta, e cerca de r=0,30 na infância. Traduzindo o que isso não é: r=0,50 não significa "50% de chance de mudar". É uma correlação — indica considerável estabilidade com espaço real para mudança.
E a teoria não pressupõe continuidade. Os modelos internos são sensíveis a experiências contínuas, e o que importa é a história acumulada de relacionamentos, não apenas as origens na infância.
Sobre "apego seguro conquistado" (earned secure): o conceito, quando medido retrospectivamente, é metodologicamente frágil. Dados longitudinais mostram que pessoas classificadas como earned-secure não tinham sido mais inseguras na infância e de fato receberam cuidado materno de alta qualidade. Mais revelador ainda: induzir tristeza experimentalmente aumentou a chance de alguém ser classificado assim — ou seja, a classificação captura em parte o humor de quem responde, não só a história.
A crítica é à definição retrospectiva, não à ideia de que o apego pode mudar.
Quer entender melhor seus padrões?
Um psicólogo pode te ajudar a transformar autoconhecimento em mudança prática.
O mito do "foi minha mãe"
A frase "seu apego com sua mãe define seus relacionamentos" é o clichê mais repetido do tema. Os números não a sustentam.
- A segurança global correlaciona apenas 0,30 a 0,50 com a segurança medida em relacionamentos específicos.
- A associação entre segurança com os pais e segurança no relacionamento amoroso gira em torno de r=0,20 — uma associação fraca.
Apego não é uma coisa só. Você pode ser seguro com um amigo e ansioso com um parceiro. E a sua infância não é uma sentença.
Quando vale procurar ajuda
O critério não é o estilo — é o prejuízo:
- Você repete o mesmo roteiro em relacionamentos diferentes e reconhece o padrão.
- A insegurança na relação ocupa boa parte do seu dia.
- Você evita proximidade e isso te deixa sozinho de um jeito que dói.
- Você aceita coisas que te machucam por medo de perder a pessoa.
- Há sofrimento intenso, desesperança ou pensamentos de morte — CVV 188, telefone gratuito, 24 horas.
Perguntas frequentes
Quais são os 4 tipos de apego?
No modelo adulto de Bartholomew e Horowitz (1991), são seguro, preocupado, temeroso-evitativo e desdenhoso-evitativo. Eles resultam do cruzamento de duas dimensões: a imagem que a pessoa tem de si (positiva ou negativa) e a imagem que tem dos outros.
O quarto tipo de apego é o desorganizado?
Não, no modelo adulto. O quarto estilo adulto é o temeroso-evitativo. "Desorganizado/desorientado" é uma categoria infantil, acrescentada por Main e Solomon em 1986/1990 à Situação Estranha de Ainsworth, e não faz parte do modelo de apego adulto de Bartholomew e Horowitz.
Qual a diferença entre o modelo de 3 e o de 4 estilos?
O modelo de três categorias é de Hazan e Shaver (1987) — seguro, evitativo e ansioso/ambivalente —, traduzido das três categorias infantis de Ainsworth. O de quatro, de 1991, desdobra o evitativo em dois grupos: o desdenhoso (imagem positiva de si, negativa dos outros) e o temeroso (imagem negativa de si e dos outros).
Existe teste de apego confiável?
Existem instrumentos de pesquisa, como a ECR-R-Brasil, com evidências de validade para a população brasileira a partir de 4.879 adultos das cinco regiões. Mas no Brasil o uso profissional de testes psicológicos é privativo do psicólogo (Resolução CFP nº 31/2022), e quiz de blog não é teste psicológico — não tem norma nem ponto de corte.
O tipo de apego muda com o tempo?
A estabilidade ao longo de 10 anos é de cerca de r=0,50 na vida adulta — considerável, mas com espaço real para mudança. A teoria não pressupõe continuidade: os modelos internos são sensíveis a experiências contínuas, e o que pesa é a história acumulada de relacionamentos.
A minha infância determina meus relacionamentos?
Os dados dizem que não de forma determinista. A associação entre segurança com os pais e segurança no relacionamento amoroso gira em torno de r=0,20 — uma associação fraca. E a segurança global correlaciona apenas 0,30 a 0,50 com a segurança em relacionamentos específicos.
Quer entender melhor seus padrões?
Um psicólogo pode te ajudar a transformar autoconhecimento em mudança prática.
Leia também
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Fontes: Bartholomew K, Horowitz LM — Journal of Personality and Social Psychology, 1991;61(2):226-244 · Hazan C, Shaver P — JPSP, 1987;52(3):511-524 · Mickelson KD, Kessler RC, Shaver PR — JPSP, 1997;73(5):1092 · Main M, Solomon J, 1986/1990 · Fraley RC, Hudson NW, "The development of attachment styles", in Personality Development Across the Lifespan, 2017 · Roisman GI, Fortuna K, Holland A — Child Development, 2006;77(1) · Natividade JC, Shiramizu VKM — Psicologia USP, 2015;26(3):484-494 · Bakermans-Kranenburg MJ, van IJzendoorn MH — Attachment & Human Development, 2009 · Bakermans-Kranenburg MJ et al. — Attachment & Human Development, 2025;27(2) · Conselho Federal de Psicologia, Resolução nº 31/2022.
Este conteúdo é informativo, não fecha diagnóstico e não substitui avaliação profissional. Em sofrimento intenso, CVV 188 (telefone, 24h).
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