Se você buscou "fases da limerência", encontrou um modelo de três fases. Se buscou de novo, encontrou um de quatro. Provavelmente viu também um de cinco. E todos apareciam atribuídos à mesma pessoa: Dorothy Tennov.
Não podem estar todos certos.
Este texto faz o que os outros não fazem: separa o que tem fonte do que não tem. Não é rigor por rigor — é que a diferença entre "as fases descritas pela ciência" e "um modelo que alguém escreveu num blog" muda o quanto você deve confiar no que lê sobre uma coisa que está te machucando.
Resumo direto
- Circulam modelos de 3, 4 e 5 fases — todos atribuídos a Tennov por fontes diferentes.
- Nenhum deles aparece em literatura revisada por pares. Uma busca no Europe PMC por limerence combinado com stages ou phases retorna 12 registros — nenhum propondo um modelo de fases.
- A palavra "cristalização", presente na maioria dos modelos, foi criada pelo escritor francês Stendhal em 1822 — 157 anos antes do livro de Tennov.
- O único modelo nomeado na literatura acadêmica é o modelo IDR de Wakin e Vo (2008) — e ele não é um modelo de fases.
- O que tem fonte: a incerteza como motor, a duração média e os 12 componentes originais.
Sumário
- Os três modelos que circulam
- O que a busca acadêmica encontra
- "Cristalização" vem de 1822
- O único modelo que existe na literatura
- Então o ciclo não existe?
- O que tem fonte, e serve mais
- Por que isso importa para você
- Perguntas frequentes
- Leia também
Os três modelos que circulam
| Modelo | Fases | Onde aparece |
|---|---|---|
| 3 fases | Paixão → cristalização → deterioração | Reportagem da BBC News Brasil (2025); Cleveland Clinic (infatuation, crystallization, deterioration) |
| 4 fases | Atração → obsessão → euforia → resolução | Fóruns e sites de conteúdo |
| 5 fases | Variações das anteriores, com subdivisões | Conteúdo online diverso |
Repare em dois detalhes.
Primeiro: a reportagem da BBC escreve "normalmente, há três estágios de limerência" — sem atribuir a ninguém. Ela não diz que são de Tennov. Quem acrescentou a atribuição foi a camada de conteúdo que veio depois.
Segundo: a Cleveland Clinic descreve os mesmos três estágios e atribui o conceito de limerência a Dorothy Tennov — o que está correto quanto ao conceito. Mas atribuir o conceito não é o mesmo que atribuir o modelo de fases. É nessa dobra que a informação se distorce.
Quer entender melhor seus padrões?
Um psicólogo pode te ajudar a transformar autoconhecimento em mudança prática.
O que a busca acadêmica encontra
Fizemos a verificação de forma direta: busca no Europe PMC por limerence combinado com stages ou phases.
Resultado: 12 registros. Nenhum propõe um modelo de fases.
Isso não significa que o ciclo descrito seja falso. Significa que ele não foi formulado, testado ou validado em literatura científica — é uma descrição editorial que ganhou vida própria e, no caminho, ganhou também uma autora que nunca a escreveu.
"Cristalização" vem de 1822
Este é o detalhe mais curioso, e ele sozinho explica muita coisa.
A palavra cristalização, que aparece como segunda fase na maioria dos modelos, foi criada pelo escritor francês Stendhal, no livro De l'Amour (1822). Stendhal descreveu sete estágios do amor-paixão e usou uma imagem que ficou: um galho comum deixado numa mina de sal em Salzburgo emerge, tempos depois, coberto de cristais brilhantes.
A metáfora é sobre idealização. O galho não mudou — a percepção dele, sim.
É uma imagem excelente, e ela descreve bem o que acontece na limerência. Só não é psicologia contemporânea: é literatura francesa do século XIX, publicada 157 anos antes do livro de Tennov.
Nota de honestidade: afirmamos aqui a origem do termo em Stendhal. Não localizamos o texto de Tennov confirmando que ela tomou a palavra emprestada dele — então não afirmamos essa cadeia.
O único modelo que existe na literatura
Existe, sim, um modelo nomeado de limerência em literatura acadêmica: o modelo IDR de Wakin e Vo (2008).
Ele traça paralelos com o transtorno obsessivo-compulsivo e com o transtorno por uso de substâncias, mas distingue a limerência como condição própria.
Duas ressalvas importantes:
- Não é um modelo de fases. É um modelo conceitual sobre a natureza do estado.
- Foi apresentado em conferência, não é um modelo validado.
Ou seja: nem o único modelo acadêmico que existe sustenta as fases que circulam.
Quer entender melhor seus padrões?
Um psicólogo pode te ajudar a transformar autoconhecimento em mudança prática.
Então o ciclo não existe?
Existe algo — só não com a precisão que uma numeração sugere.
O que se pode dizer com base no que tem fonte:
Começa rápido. Um estudo qualitativo registra poucas semanas entre o início e o consumo intenso de tempo mental.
Intensifica com incerteza. A literatura descreve a incerteza como a força motriz do desenvolvimento e da manutenção do estado. Tennov argumentava que algum grau de incerteza situacional é necessário para que a preocupação mental se intensifique.
Enfraquece com clareza. O corolário do ponto anterior: a limerência tende a perder força quando a reciprocidade se torna clara e estável.
Termina — normalmente em meses a anos. Tennov descreveu de semanas a décadas, com média de 18 meses a 3 anos.
Isso é um curso, não um estágio numerado. E é honesto assim.
O que tem fonte, e serve mais
Se você veio procurar "em que fase estou", a resposta útil não é um número — é o mecanismo.
| Pergunta | O que tem fonte |
|---|---|
| Quais são os sinais? | Os 12 componentes descritos por Tennov em 1979 |
| Por que não passa? | A incerteza é descrita como o motor do estado |
| Quanto ocupa da cabeça? | Num estudo de 7 dias com 51 pessoas, 50% do pensamento em vigília |
| Quanto tempo dura? | 18 meses a 3 anos de média; cerca de 2 anos no maior estudo quantitativo |
| É diagnóstico? | Não. Não está no DSM e não tem critérios formais |
| Terapia funciona? | Só há um relato de caso publicado; a eficácia ainda não foi avaliada |
Saber que a incerteza alimenta o estado te diz o que fazer. Saber que você "está na fase 2 de 4" não te diz nada.
Por que isso importa para você
Não é preciosismo acadêmico. É prática.
Modelos de fases sugerem previsibilidade que não existe. "Estou na fase 3, então falta pouco" é uma conclusão que o modelo não sustenta — e a decepção quando o prazo não se cumpre é real.
Atribuição falsa gera confiança falsa. Quando um conteúdo diz "segundo Dorothy Tennov" sobre algo que ela não escreveu, ele empresta autoridade que não tem. Se erra nisso, pode estar errando no resto.
E o que realmente ajuda fica de fora. Enquanto se discute quantas fases existem, o mecanismo que sustenta o estado — a incerteza e o reforço intermitente — costuma nem ser mencionado.
Quer entender melhor seus padrões?
Um psicólogo pode te ajudar a transformar autoconhecimento em mudança prática.
Perguntas frequentes
Quantas fases tem a limerência?
Não há resposta oficial. Circulam modelos de 3, 4 e 5 fases, atribuídos a Dorothy Tennov por fontes diferentes, e nenhum deles aparece em literatura revisada por pares. Uma busca no Europe PMC por limerence combinado com stages ou phases retorna 12 registros, nenhum propondo um modelo de fases.
As fases da limerência são de Tennov?
Não há confirmação disso. A reportagem da BBC News Brasil que descreve três estágios não atribui o modelo a ninguém, e a Cleveland Clinic atribui a Tennov o conceito de limerência — não o modelo de fases. São coisas diferentes.
O que é a fase de cristalização?
Nos modelos que circulam, é a etapa de pensamento obsessivo e idealização. O termo, porém, foi criado pelo escritor francês Stendhal em De l'Amour (1822), que descreveu sete estágios do amor-paixão e usou a imagem de um galho deixado numa mina de sal, que emerge coberto de cristais. É literatura do século XIX, não psicologia contemporânea.
Existe algum modelo de limerência na literatura científica?
Existe o modelo IDR de Wakin e Vo (2008), que traça paralelos com o transtorno obsessivo-compulsivo e com o transtorno por uso de substâncias, mas distingue a limerência como condição própria. Não é um modelo de fases e foi apresentado em conferência, não validado.
Se as fases não têm fonte, o que eu uso para me entender?
Os 12 componentes descritos por Tennov em 1979, e o mecanismo da incerteza — descrito na literatura como a força motriz do desenvolvimento e da manutenção do estado. O mecanismo é mais útil que a numeração, porque aponta o que fazer.
A limerência acaba sozinha?
Costuma acabar. Tennov descreveu episódios de algumas semanas a décadas, com média de 18 meses a 3 anos, e o maior estudo quantitativo encontrou cerca de 2 anos por episódio. Mas o curso natural pressupõe que a incerteza não esteja sendo continuamente realimentada.
Leia também
- Limerência: os 12 componentes descritos por Tennov
- Limerência: quanto tempo costuma durar e o que ajuda a sair
- Limerência: o que é, sinais e como lidar com apego obsessivo
- Limerência ou paixão? Diferenças e sinais de alerta
Fontes: Tennov D., Love and Limerence, Stein and Day, 1979 · Stendhal, De l'Amour, 1822 · Wakin AH, Vo DB, "Love-variant: the Wakin-Vo IDR model of limerence", 2008, apud Wyant BE, Journal of Patient Experience, 2021 · BBC News Brasil, 08/02/2025 · Cleveland Clinic, verbete Limerence · busca em Europe PMC.
Este conteúdo é informativo, não fecha diagnóstico e não substitui avaliação profissional. Em sofrimento intenso, CVV 188 (telefone, 24h).
Quer entender o seu próprio ciclo? Veja os psicólogos disponíveis na Pratimed, com CRP visível antes de agendar.




