Antes de qualquer número: isto é rastreio, não diagnóstico. O PHQ-9 sinaliza quem merece uma avaliação. Quem fecha diagnóstico é profissional habilitado, em entrevista.
E há um item neste questionário que funciona diferente de todos os outros. O item 9 pergunta sobre pensamentos de morte ou de se ferir — e, no algoritmo original, ele conta em qualquer frequência, enquanto todos os demais exigem "mais da metade dos dias". Se ele foi marcado, mesmo que "vários dias", a leitura muda.
Se você marcou esse item: CVV 188, gratuito, 24 horas por telefone (o chat em cvv.org.br tem horário próprio). SAMU 192 em risco imediato. CAPS do município, sem agendamento.
Resumo direto
- 9 itens, cada um de 0 a 3, referentes às últimas 2 semanas. Total de 0 a 27.
- Faixas: 0-4 mínima · 5-9 leve · 10-14 moderada · 15-19 moderadamente grave · 20-27 grave.
- 10 ou mais é o corte para procurar avaliação. No estudo original: 88% de sensibilidade e 88% de especificidade.
- No Brasil, os números são menos favoráveis: 77,5% e 86,7%, em estudo populacional com entrevista diagnóstica como padrão-ouro.
- O item 9 tem regra própria e exige conduta imediata.
- Pontuar alto não é diagnóstico. Três motivos explicam por quê.
Sumário
- Os 9 itens
- As faixas e a conduta de cada uma
- O item 9 e por que ele é diferente
- O número brasileiro que ninguém publica
- Três razões para pontuação alta não ser diagnóstico
- O que a SERP erra
- Perguntas frequentes
- Leia também
Os 9 itens
Nas últimas duas semanas, com que frequência você foi incomodado pelos seguintes problemas?
0 = nenhuma vez · 1 = vários dias · 2 = mais da metade dos dias · 3 = quase todos os dias.
- Pouco interesse ou pouco prazer em fazer as coisas.
- Se sentir para baixo, deprimido ou sem perspectiva.
- Dificuldade para pegar no sono, permanecer dormindo ou dormir demais.
- Se sentir cansado ou com pouca energia.
- Falta de apetite ou comendo demais.
- Se sentir mal consigo mesmo — ou achar que é um fracasso ou que decepcionou sua família ou você mesmo.
- Dificuldade para se concentrar nas coisas, como ler o jornal ou ver televisão.
- Lentidão para se movimentar ou falar, a ponto de outras pessoas perceberem. Ou o oposto: estar tão agitado que você fica andando de um lado para o outro muito mais que de costume.
- Pensar em se ferir de alguma maneira ou que seria melhor estar morto.
Os nove itens correspondem exatamente aos nove critérios diagnósticos de depressão do manual em que o instrumento foi baseado. O questionário é de domínio público.
Sobre a "décima pergunta". O formulário original traz, depois dos nove itens, uma pergunta sobre o quanto esses problemas dificultaram seu trabalho, sua casa e seu convívio. Ela não entra em nenhum escore — é a impressão global de prejuízo, feita para a conversa clínica.
Quer entender melhor seus padrões?
Um psicólogo pode te ajudar a transformar autoconhecimento em mudança prática.
As faixas e a conduta de cada uma
Diferente do que acontece com a escala de ansiedade, aqui as faixas foram propostas junto com o instrumento. A tabela de conduta abaixo vem do manual oficial.
| Escore | Gravidade | Conduta proposta pelo manual |
|---|---|---|
| 0-4 | Mínima | Nenhuma |
| 5-9 | Leve | Observação vigilante; repetir o questionário no seguimento |
| 10-14 | Moderada | Plano de tratamento, considerando aconselhamento, seguimento e/ou farmacoterapia |
| 15-19 | Moderadamente grave | Tratamento ativo |
| 20-27 | Grave | Início imediato de tratamento e encaminhamento acelerado a especialista |
Repare na faixa 5 a 9: a conduta é acompanhar e repetir, não iniciar tratamento. Muita página online transforma "leve" em indicação de tratamento, e o manual não faz isso.
Sobre os dois usos do instrumento. O PHQ-9 serve para gerar um escore de gravidade (0 a 27) e para rodar um algoritmo de diagnóstico provisório — e o manual registra que, na prática, os escores de gravidade são hoje muito mais usados. Testes online costumam confundir os dois.
O item 9 e por que ele é diferente
Este é o ponto que separa um texto responsável de um gerador de escore.
A regra técnica: no algoritmo diagnóstico, o item 9 conta se estiver presente em qualquer frequência, independentemente da duração. Todos os outros oito exigem "mais da metade dos dias". É o único com esse tratamento.
O que os dados mostram. Um estudo com 84.418 pacientes acompanhou o desfecho conforme a resposta ao item 9:
| Resposta ao item 9 | Risco de tentativa em 1 ano | Morte por suicídio em 1 ano |
|---|---|---|
| "Nenhuma vez" | 0,4% | 0,03% (1 em 3.000) |
| "Quase todos os dias" | 4% | 0,3% (1 em 300) |
Dez vezes mais. A razão de risco para "quase todos os dias" contra "nenhuma vez" ficou em torno de 6,4.
E o outro lado, igualmente importante: responder "nenhuma vez" não exclui risco. No mesmo estudo, cerca de um quarto das tentativas ocorridas na semana seguinte veio de pessoas que haviam respondido "nenhuma vez".
O que o manual orienta: a decisão final sobre risco real exige entrevista clínica. Existe um rastreador curto de quatro itens indicado como apoio para respostas positivas ao item 9 — mas ele também não substitui a conversa.
Se você marcou qualquer valor acima de zero no item 9, o passo não é interpretar a tabela. É falar com alguém hoje: CVV 188, CAPS, SAMU 192 ou pronto-socorro.
O número brasileiro que ninguém publica
O desempenho que circula em toda página em português — 88% de sensibilidade e 88% de especificidade — vem do estudo original, feito na atenção primária dos Estados Unidos.
O Brasil tem número próprio, e ele é menos favorável.
Um estudo de base populacional em Pelotas, com 447 adultos e entrevista diagnóstica estruturada como padrão-ouro, encontrou como melhor corte acima de 9, com 77,5% de sensibilidade e 86,7% de especificidade. E registrou que, usando o algoritmo do teste em vez do escore, a sensibilidade despenca para 42,5% — embora a especificidade suba para 95,3%.
Uma segunda validação brasileira, com 177 mulheres na atenção primária e outra entrevista estruturada como padrão-ouro, também apontou 10 ou mais como corte mais adequado.
Nenhuma página da primeira página do Google em português usa o número brasileiro. Vale saber que existe — e que ele é mais conservador.
Um ponto regulatório útil: o PHQ-9 consta na lista de Instrumentos Não Privativos do sistema de avaliação de testes do Conselho Federal de Psicologia, com análise de maio de 2020. Já os inventários de Beck para depressão, ansiedade e ideação suicida constam como testes psicológicos favoráveis — e o uso profissional de testes psicológicos é privativo do psicólogo. Páginas que oferecem "teste de Beck online" ao público geral estão em terreno diferente do que supõem.
O próprio sistema adverte que, para instrumentos classificados como não privativos, a qualidade psicométrica não é avaliada pela comissão — cabe ao profissional verificar o respaldo.
Quer entender melhor seus padrões?
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Três razões para pontuação alta não ser diagnóstico
1. Comorbidade. Vários dos nove itens — sono, apetite, energia, concentração — aparecem em ansiedade, em transtorno bipolar, em TDAH e em quadros de estresse. Um escore alto diz que há sintomas, não qual é o quadro.
2. Evento recente. Luto, demissão, término e diagnóstico na família produzem, com razão, respostas altas por duas semanas. Isso é sofrimento esperado, não necessariamente transtorno — e a distinção é clínica.
3. Condição não psiquiátrica. Hipotireoidismo, anemia, deficiência de vitamina D, apneia do sono e efeito de medicações produzem cansaço, lentificação, sono ruim e desânimo. Nenhum questionário separa isso; exame de sangue separa.
Há um quarto ponto que a diretriz brasileira faz questão de registrar: antes de fechar diagnóstico de depressão, é preciso afastar transtorno bipolar, porque 10% a 20% dos diagnósticos unipolares mudam ao longo do tempo — e a conduta é outra.
O que a SERP erra
Vale saber o que você encontra buscando "teste de depressão online" no Brasil.
Uma página de primeira página ranqueia com "Inventário de Beck (BDI-II)" no título e na URL — mas o próprio corpo do texto informa que o teste não é mais o BDI-II, após questionamento do Conselho Federal e de um Conselho Regional de Psicologia. O SEO continua capturando a busca por um instrumento que a página já não entrega.
Páginas portuguesas e estrangeiras ocupam a busca brasileira, oferecendo "PHQ-9 validado clinicamente" sem dizer qual validação — e sem conhecer CVV, CAPS ou o sistema brasileiro de avaliação de instrumentos.
Outras entregam DASS-21 sob o rótulo de teste de depressão. É instrumento diferente, com janela de 7 dias em vez de 14 e faixas próprias. Os escores não se comparam.
E quase nenhuma trata o item 9 com a conduta que ele exige.
Perguntas frequentes
O que significa minha pontuação no PHQ-9?
O escore vai de 0 a 27: 0-4 mínima, 5-9 leve, 10-14 moderada, 15-19 moderadamente grave e 20-27 grave. O manual associa a faixa 5-9 a observação e repetição do questionário, e a partir de 10 a plano de tratamento com avaliação profissional. É rastreio, não diagnóstico.
O PHQ-9 diagnostica depressão?
Não. É instrumento de rastreio: sinaliza quem merece avaliação. Pontuação alta pode refletir comorbidade, reação a evento recente ou condição clínica não psiquiátrica, como hipotireoidismo ou anemia. O diagnóstico exige entrevista com profissional habilitado.
Marquei o item 9. O que faço?
Fale com alguém hoje. Ligue para o CVV no 188 (gratuito, 24 horas por telefone; o chat tem horário próprio), procure o CAPS do seu município, que atende sem agendamento, ou o pronto-socorro. No algoritmo do instrumento, esse item conta em qualquer frequência, e os dados mostram risco de tentativa dez vezes maior entre quem responde "quase todos os dias".
O PHQ-9 é validado no Brasil?
Sim, com números próprios. Estudo populacional em Pelotas, com entrevista diagnóstica como padrão-ouro, encontrou melhor corte acima de 9, com 77,5% de sensibilidade e 86,7% de especificidade — menos favoráveis que os 88%/88% do estudo original americano que circula na internet.
Qual a diferença entre PHQ-9, GAD-7 e Beck?
O PHQ-9 rastreia depressão em 9 itens; o GAD-7 rastreia ansiedade em 7; ambos com janela de duas semanas e ambos de domínio público. Os inventários de Beck são testes psicológicos classificados como favoráveis pelo sistema de avaliação do CFP, e seu uso profissional é privativo do psicólogo.
Posso usar o PHQ-9 para acompanhar meu tratamento?
Sim, e é um dos usos mais legítimos — aplicado a cada quatro ou seis sessões, ele mostra a curva do seu próprio escore ao longo do tempo, o que é bem mais informativo do que um número isolado.
Quer entender melhor seus padrões?
Um psicólogo pode te ajudar a transformar autoconhecimento em mudança prática.
Leia também
- Depressão: sintomas, causas, diagnóstico e tratamento
- Tristeza profunda: quando é normal e quando pode ser depressão
- Psicólogo online gratuito: existe? Opções e cuidados ao escolher
- Teste de ansiedade GAD-7: o que a pontuação indica e o que ela não diagnostica
Fontes: Kroenke K, Spitzer RL, Williams JBW, The PHQ-9, J Gen Intern Med 2001;16(9):606-613 · Kroenke & Spitzer, Psychiatric Annals 2002;32 · Instruction Manual — PHQ and GAD-7 Measures · Santos IS et al., Cad Saúde Pública 2013;29(8) · de Lima Osório F et al., Perspect Psychiatr Care 2009;45(3) · Simon GE et al., Psychiatric Services 2013 · SATEPSI/CFP · Resolução CFP 31/2022.
Este conteúdo é informativo, é rastreio e não fecha diagnóstico. Em risco à vida, ligue CVV 188 ou SAMU 192.
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