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Teste de ansiedade GAD-7: o que a pontuação indica e o que ela não diagnostica

Antes do primeiro item: isto é um rastreio, não um diagnóstico. O GAD-7 foi desenhado para sinalizar quem merece uma avaliação — não para dizer se você tem ou...

Equipe Pratimed21 de agosto de 202612 min de leitura
Teste de ansiedade GAD-7: o que a pontuação indica e o que não diagnostica
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Antes do primeiro item: isto é um rastreio, não um diagnóstico. O GAD-7 foi desenhado para sinalizar quem merece uma avaliação — não para dizer se você tem ou não um transtorno. Quem faz diagnóstico é profissional habilitado, em avaliação individual.

Dito isso, existe uma coisa sobre este questionário que praticamente nenhuma página em português conta, e que muda como você deve ler o seu resultado.

As faixas "leve, moderada e grave" que você vai encontrar em todo lugar nunca foram validadas. Os autores do instrumento as propuseram no condicional, por analogia a outra escala. O único ponto de corte que eles testaram de fato contra entrevista diagnóstica foi o 10.


Resumo direto

  • 7 itens, cada um de 0 a 3, referentes às últimas 2 semanas. Total de 0 a 21.
  • 10 ou mais é o corte recomendado para procurar avaliação. Foi o único testado.
  • Os cortes 5, 10 e 15 foram sugeridos por analogia à escala de depressão, não derivados empiricamente.
  • Mesmo com 10 ou mais, cerca de 7 em cada 10 pessoas não tinham transtorno de ansiedade generalizada na entrevista do estudo original.
  • No Brasil, os pontos de corte nunca foram testados contra diagnóstico clínico — só a estrutura da escala foi analisada.
  • Pontuação alta não é gravidade. É sinal de que vale conversar com alguém.

Sumário


O que é o GAD-7

O Generalized Anxiety Disorder 7-item scale foi publicado em 2006 por Robert Spitzer, Kurt Kroenke, Janet Williams e Bernd Löwe, no Archives of Internal Medicine. Nasceu para uso na atenção primária: um jeito rápido de o clínico identificar quem precisa de uma investigação mais cuidadosa.

Tecnicamente ele se comporta bem. A área sob a curva ROC no estudo original foi de 0,906, e a confiabilidade teste-reteste ficou em 0,83 — números altos, que explicam por que a escala virou padrão internacional.

O que o instrumento não é: uma medida de sofrimento, uma escala de gravidade validada, ou algo que substitua conversa com profissional.


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Os 7 itens

Nas últimas duas semanas, com que frequência você foi incomodado pelos seguintes problemas?

Para cada item: 0 = nenhuma vez · 1 = vários dias · 2 = mais da metade dos dias · 3 = quase todos os dias.

  1. Sentir-se nervoso, ansioso ou muito tenso.
  2. Não ser capaz de impedir ou de controlar as preocupações.
  3. Preocupar-se muito com diversas coisas.
  4. Dificuldade para relaxar.
  5. Ficar tão agitado que se torna difícil permanecer sentado.
  6. Ficar facilmente aborrecido ou irritado.
  7. Sentir medo como se algo terrível fosse acontecer.

O instrumento é de domínio público e sua tradução para o português brasileiro foi disponibilizada em 2013.

Um aviso sobre a "oitava pergunta". Alguns sites publicam um "GAD-7 de 8 itens". O GAD-7 tem sete. O oitavo item que aparece no formulário original é a pergunta sobre o quanto esses problemas dificultaram a sua vida — e o manual oficial diz de forma explícita que ela não entra em nenhum escore. Ela serve para conversa clínica, não para soma.


Como somar

Some os sete valores. O resultado vai de 0 a 21.

Só isso. Não há peso diferente por item, nem cálculo escondido.


O que cada faixa realmente indica

Aqui está a tabela, com a ressalva que muda tudo.

PontuaçãoComo costuma ser apresentadaO que de fato se sabe
0 a 4"Mínima"Poucos sintomas relatados no período
5 a 9"Leve"Faixa proposta por analogia, nunca testada contra diagnóstico
10 a 14"Moderada"Único corte testado. O manual chama 10 de "sinal amarelo": vale avaliação
15 a 21"Grave"Faixa proposta por analogia. O manual chama 15 de "sinal vermelho"

A frase exata do artigo original é que os cortes 5, 10 e 15 "poderiam ser interpretados" como representando níveis leve, moderado e grave — "de forma similar aos níveis de depressão no PHQ-9". É uma sugestão por paralelismo com outra escala, escrita no condicional. Não é um achado.

O que o manual oficial recomenda, em compensação, é claro: o ponto de corte para investigação adicional é 10 ou mais.

Conduta razoável por faixa:

  • 0 a 4 — nada a fazer por causa do número. Se você está sofrendo mesmo com pontuação baixa, o sofrimento vale mais que a escala.
  • 5 a 9 — vale observar. Se persistir por semanas ou atrapalhar sono, trabalho ou relações, procure avaliação.
  • 10 ou mais — procure avaliação profissional. Não é diagnóstico; é o limiar em que a investigação passa a fazer sentido.
  • 15 ou mais — procure avaliação com mais prioridade.

Repare que a conduta em toda faixa alta é a mesma: conversar com alguém. Nenhuma delas indica iniciar tratamento por conta própria.


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Por que tanta gente "dá positivo"

Este é o número mais importante do texto e ele não aparece em lugar nenhum da primeira página do Google.

No estudo original, com corte de 10 ou mais, o GAD-7 teve 89% de sensibilidade e 82% de especificidade. Parece ótimo. Mas o valor preditivo positivo foi de 29%.

Em português: entre as pessoas que pontuaram 10 ou mais, cerca de 7 em cada 10 não tinham transtorno de ansiedade generalizada quando foram entrevistadas por um clínico.

Os próprios autores registraram a tensão. Com o corte 10, a prevalência estimada de TAG ficaria em 23% da amostra. Com o corte 15, ficaria em 9% — número que eles descrevem como mais compatível com as estimativas epidemiológicas reais na atenção primária.

Ou seja: o corte popular superestima em mais de duas vezes.

Há ainda um dado mais recente que a SERP brasileira ignora: a meta-análise da força-tarefa americana de serviços preventivos (2023) encontrou sensibilidade agrupada de 0,79, abaixo dos 89% do estudo original. Os sites brasileiros repetem 89%/82% sem mencionar a revisão mais nova.

Como isso muda a leitura do seu resultado: um número alto significa "há sintomas suficientes para valer uma conversa", não "você tem ansiedade".


O que a versão brasileira sabe e o que não sabe

Vale separar as duas coisas, porque a diferença é grande.

O que foi estudado no Brasil: Moreno e colaboradores analisaram a versão em português brasileiro em 2016, com 206 adultos, e confirmaram que a escala mede uma coisa só (estrutura unidimensional), com fidedignidade alta — alfa de Cronbach de 0,916. Em 2022, Leite e Faro publicaram evidências de validade com 302 adolescentes brasileiros de 15 a 19 anos.

O que não foi estudado: os pontos de corte. Até 2022, a literatura brasileira registrava que ainda faltava um estudo de validade de critério do GAD-7 no país — isto é, os cortes usados aqui nunca foram testados contra diagnóstico clínico de TAG feito por profissional em amostra brasileira.

Isso não invalida o instrumento. Significa que os números 5, 10 e 15 chegaram ao Brasil emprestados de um estudo americano de 2006, e ninguém verificou se funcionam igual aqui.

Um dado do estudo com adolescentes brasileiros ilustra bem: 47,4% da amostra pontuou acima de 10. Quase metade de uma amostra de comunidade, não de clínica.


Se alguma resposta te assustou

O GAD-7 não tem item sobre pensamentos de morte. Mas ansiedade intensa e sofrimento persistente andam juntos com frequência, e é comum alguém chegar aqui em estado ruim.

Se você está pensando em tirar a própria vida, em se machucar, ou sente que não vai conseguir atravessar hoje:

  • CVV — 188. Gratuito, 24 horas, todos os dias, em todo o país. Também por chat em cvv.org.br. É acolhimento emocional por voluntários treinados — o próprio CVV informa que não trata transtornos mentais, e por isso ele não substitui acompanhamento.
  • CAPS do seu município, que atende crise sem agendamento.
  • SAMU 192 em risco imediato.

Nenhum resultado de escala precisa ser esperado para procurar ajuda.


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O que a página 1 do Google erra

Levantei os resultados que ocupam a busca por "teste de ansiedade" no Brasil. Vale saber o que você encontra por lá.

Uma página em primeiro lugar afirma que "somente médicos psiquiatras podem fazer o diagnóstico de doenças". Isso está incorreto no Brasil. A Lei 4.119/1962, no artigo 13, § 1º, alínea "a", define o diagnóstico psicológico como função privativa do psicólogo. É um site estrangeiro em português ranqueando em primeiro com uma afirmação errada sobre a legislação brasileira.

Outra publica um "teste baseado no GAD-7" com 8 itens — e transforma as quatro faixas em apenas duas, "com" ou "sem" sintomas significativos, perdendo justamente a gradação que o leitor foi buscar.

Duas páginas entregam o DASS-21 sob o rótulo de "teste de ansiedade". É outro instrumento, com janela de 7 dias em vez de 14 e faixas de corte completamente diferentes. Quem compara dois "testes de ansiedade" da mesma página de resultados recebe escalas incomparáveis, sem nenhum aviso.

Uma delas entrega o questionário completo e nenhuma interpretação — sem faixas, sem citar os autores, sem mencionar validação.

Um detalhe regulatório que quase ninguém sabe: nem todo questionário de saúde mental pode ser publicado livremente. O sistema de avaliação de instrumentos do Conselho Federal de Psicologia classifica o PHQ-9 como instrumento não privativo (análise de maio de 2020), enquanto o Inventário de Depressão de Beck, o Inventário de Ansiedade de Beck e a Escala de Ideação Suicida de Beck constam como testes psicológicos favoráveis — e o uso profissional de testes psicológicos é privativo do psicólogo, pela Resolução CFP 31/2022. Páginas que oferecem "teste de Beck online" para qualquer visitante estão em terreno diferente do que imaginam.


Perguntas frequentes

O que significa minha pontuação no GAD-7?

A soma vai de 0 a 21. O ponto de corte recomendado pelo manual oficial para procurar avaliação é 10 ou mais. As faixas "leve, moderada e grave" nos pontos 5, 10 e 15 foram propostas pelos autores por analogia à escala de depressão, no condicional, e nunca foram validadas como faixas de gravidade.

O GAD-7 diagnostica ansiedade?

Não. É um instrumento de rastreio. No estudo original, entre as pessoas que pontuaram 10 ou mais, apenas cerca de 3 em cada 10 tinham transtorno de ansiedade generalizada na entrevista clínica. Um número alto indica que vale procurar avaliação, não que existe um transtorno.

Pontuei alto. Preciso de remédio?

Essa não é uma conclusão que uma escala permite. Decisão sobre medicação é do médico, em avaliação individual, e boa parte dos quadros de ansiedade responde bem a psicoterapia sem medicação. O passo depois de um escore alto é conversar com um profissional, não iniciar tratamento.

O GAD-7 é validado no Brasil?

A versão em português brasileiro teve a estrutura e a fidedignidade analisadas em 2016, com bons resultados, e há evidências de validade para adolescentes publicadas em 2022. O que não existe é estudo brasileiro de validade de critério — ou seja, os pontos de corte usados aqui nunca foram testados contra diagnóstico clínico em amostra nacional.

Qual a diferença entre GAD-7, PHQ-9 e DASS-21?

O GAD-7 rastreia ansiedade em 7 itens, com janela de duas semanas. O PHQ-9 rastreia depressão em 9 itens, também em duas semanas. O DASS-21 mede depressão, ansiedade e estresse em 21 itens, com janela de uma semana e faixas de corte próprias. Não são intercambiáveis e os escores não se comparam entre si.

Posso repetir o teste para acompanhar meu progresso?

Sim, e esse é um uso legítimo — inclusive dentro da terapia, aplicado a cada quatro ou seis sessões. Acompanhar a variação do seu próprio escore ao longo do tempo é mais informativo do que interpretar um número isolado.


Leia também


Fontes: Spitzer RL, Kroenke K, Williams JBW, Löwe B. A Brief Measure for Assessing Generalized Anxiety Disorder: The GAD-7. Arch Intern Med. 2006;166(10):1092-1097 · Kroenke K, Spitzer RL, Williams JBW. Instruction Manual — PHQ and GAD-7 Measures · Moreno AL et al. Temas em Psicologia, 2016;24(1):367-376 · Leite & Faro. Psico-USF, 2022;27(2):345-356 · SATEPSI/CFP · Resolução CFP 31/2022 · Lei 4.119/1962.

Este conteúdo é informativo, é rastreio e não fecha diagnóstico. Em risco à vida, ligue CVV 188 ou SAMU 192.

Pontuou 10 ou mais? O próximo passo é conversar. Veja os psicólogos disponíveis na Pratimed, com CRP visível antes de agendar.

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