Antes do primeiro item: isto é um rastreio, não um diagnóstico. O GAD-7 foi desenhado para sinalizar quem merece uma avaliação — não para dizer se você tem ou não um transtorno. Quem faz diagnóstico é profissional habilitado, em avaliação individual.
Dito isso, existe uma coisa sobre este questionário que praticamente nenhuma página em português conta, e que muda como você deve ler o seu resultado.
As faixas "leve, moderada e grave" que você vai encontrar em todo lugar nunca foram validadas. Os autores do instrumento as propuseram no condicional, por analogia a outra escala. O único ponto de corte que eles testaram de fato contra entrevista diagnóstica foi o 10.
Resumo direto
- 7 itens, cada um de 0 a 3, referentes às últimas 2 semanas. Total de 0 a 21.
- 10 ou mais é o corte recomendado para procurar avaliação. Foi o único testado.
- Os cortes 5, 10 e 15 foram sugeridos por analogia à escala de depressão, não derivados empiricamente.
- Mesmo com 10 ou mais, cerca de 7 em cada 10 pessoas não tinham transtorno de ansiedade generalizada na entrevista do estudo original.
- No Brasil, os pontos de corte nunca foram testados contra diagnóstico clínico — só a estrutura da escala foi analisada.
- Pontuação alta não é gravidade. É sinal de que vale conversar com alguém.
Sumário
- O que é o GAD-7
- Os 7 itens
- Como somar
- O que cada faixa realmente indica
- Por que tanta gente "dá positivo"
- O que a versão brasileira sabe e o que não sabe
- Se alguma resposta te assustou
- O que a página 1 do Google erra
- Perguntas frequentes
- Leia também
O que é o GAD-7
O Generalized Anxiety Disorder 7-item scale foi publicado em 2006 por Robert Spitzer, Kurt Kroenke, Janet Williams e Bernd Löwe, no Archives of Internal Medicine. Nasceu para uso na atenção primária: um jeito rápido de o clínico identificar quem precisa de uma investigação mais cuidadosa.
Tecnicamente ele se comporta bem. A área sob a curva ROC no estudo original foi de 0,906, e a confiabilidade teste-reteste ficou em 0,83 — números altos, que explicam por que a escala virou padrão internacional.
O que o instrumento não é: uma medida de sofrimento, uma escala de gravidade validada, ou algo que substitua conversa com profissional.
Quer entender melhor seus padrões?
Um psicólogo pode te ajudar a transformar autoconhecimento em mudança prática.
Os 7 itens
Nas últimas duas semanas, com que frequência você foi incomodado pelos seguintes problemas?
Para cada item: 0 = nenhuma vez · 1 = vários dias · 2 = mais da metade dos dias · 3 = quase todos os dias.
- Sentir-se nervoso, ansioso ou muito tenso.
- Não ser capaz de impedir ou de controlar as preocupações.
- Preocupar-se muito com diversas coisas.
- Dificuldade para relaxar.
- Ficar tão agitado que se torna difícil permanecer sentado.
- Ficar facilmente aborrecido ou irritado.
- Sentir medo como se algo terrível fosse acontecer.
O instrumento é de domínio público e sua tradução para o português brasileiro foi disponibilizada em 2013.
Um aviso sobre a "oitava pergunta". Alguns sites publicam um "GAD-7 de 8 itens". O GAD-7 tem sete. O oitavo item que aparece no formulário original é a pergunta sobre o quanto esses problemas dificultaram a sua vida — e o manual oficial diz de forma explícita que ela não entra em nenhum escore. Ela serve para conversa clínica, não para soma.
Como somar
Some os sete valores. O resultado vai de 0 a 21.
Só isso. Não há peso diferente por item, nem cálculo escondido.
O que cada faixa realmente indica
Aqui está a tabela, com a ressalva que muda tudo.
| Pontuação | Como costuma ser apresentada | O que de fato se sabe |
|---|---|---|
| 0 a 4 | "Mínima" | Poucos sintomas relatados no período |
| 5 a 9 | "Leve" | Faixa proposta por analogia, nunca testada contra diagnóstico |
| 10 a 14 | "Moderada" | Único corte testado. O manual chama 10 de "sinal amarelo": vale avaliação |
| 15 a 21 | "Grave" | Faixa proposta por analogia. O manual chama 15 de "sinal vermelho" |
A frase exata do artigo original é que os cortes 5, 10 e 15 "poderiam ser interpretados" como representando níveis leve, moderado e grave — "de forma similar aos níveis de depressão no PHQ-9". É uma sugestão por paralelismo com outra escala, escrita no condicional. Não é um achado.
O que o manual oficial recomenda, em compensação, é claro: o ponto de corte para investigação adicional é 10 ou mais.
Conduta razoável por faixa:
- 0 a 4 — nada a fazer por causa do número. Se você está sofrendo mesmo com pontuação baixa, o sofrimento vale mais que a escala.
- 5 a 9 — vale observar. Se persistir por semanas ou atrapalhar sono, trabalho ou relações, procure avaliação.
- 10 ou mais — procure avaliação profissional. Não é diagnóstico; é o limiar em que a investigação passa a fazer sentido.
- 15 ou mais — procure avaliação com mais prioridade.
Repare que a conduta em toda faixa alta é a mesma: conversar com alguém. Nenhuma delas indica iniciar tratamento por conta própria.
Quer entender melhor seus padrões?
Um psicólogo pode te ajudar a transformar autoconhecimento em mudança prática.
Por que tanta gente "dá positivo"
Este é o número mais importante do texto e ele não aparece em lugar nenhum da primeira página do Google.
No estudo original, com corte de 10 ou mais, o GAD-7 teve 89% de sensibilidade e 82% de especificidade. Parece ótimo. Mas o valor preditivo positivo foi de 29%.
Em português: entre as pessoas que pontuaram 10 ou mais, cerca de 7 em cada 10 não tinham transtorno de ansiedade generalizada quando foram entrevistadas por um clínico.
Os próprios autores registraram a tensão. Com o corte 10, a prevalência estimada de TAG ficaria em 23% da amostra. Com o corte 15, ficaria em 9% — número que eles descrevem como mais compatível com as estimativas epidemiológicas reais na atenção primária.
Ou seja: o corte popular superestima em mais de duas vezes.
Há ainda um dado mais recente que a SERP brasileira ignora: a meta-análise da força-tarefa americana de serviços preventivos (2023) encontrou sensibilidade agrupada de 0,79, abaixo dos 89% do estudo original. Os sites brasileiros repetem 89%/82% sem mencionar a revisão mais nova.
Como isso muda a leitura do seu resultado: um número alto significa "há sintomas suficientes para valer uma conversa", não "você tem ansiedade".
O que a versão brasileira sabe e o que não sabe
Vale separar as duas coisas, porque a diferença é grande.
O que foi estudado no Brasil: Moreno e colaboradores analisaram a versão em português brasileiro em 2016, com 206 adultos, e confirmaram que a escala mede uma coisa só (estrutura unidimensional), com fidedignidade alta — alfa de Cronbach de 0,916. Em 2022, Leite e Faro publicaram evidências de validade com 302 adolescentes brasileiros de 15 a 19 anos.
O que não foi estudado: os pontos de corte. Até 2022, a literatura brasileira registrava que ainda faltava um estudo de validade de critério do GAD-7 no país — isto é, os cortes usados aqui nunca foram testados contra diagnóstico clínico de TAG feito por profissional em amostra brasileira.
Isso não invalida o instrumento. Significa que os números 5, 10 e 15 chegaram ao Brasil emprestados de um estudo americano de 2006, e ninguém verificou se funcionam igual aqui.
Um dado do estudo com adolescentes brasileiros ilustra bem: 47,4% da amostra pontuou acima de 10. Quase metade de uma amostra de comunidade, não de clínica.
Se alguma resposta te assustou
O GAD-7 não tem item sobre pensamentos de morte. Mas ansiedade intensa e sofrimento persistente andam juntos com frequência, e é comum alguém chegar aqui em estado ruim.
Se você está pensando em tirar a própria vida, em se machucar, ou sente que não vai conseguir atravessar hoje:
- CVV — 188. Gratuito, 24 horas, todos os dias, em todo o país. Também por chat em cvv.org.br. É acolhimento emocional por voluntários treinados — o próprio CVV informa que não trata transtornos mentais, e por isso ele não substitui acompanhamento.
- CAPS do seu município, que atende crise sem agendamento.
- SAMU 192 em risco imediato.
Nenhum resultado de escala precisa ser esperado para procurar ajuda.
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Um psicólogo pode te ajudar a transformar autoconhecimento em mudança prática.
O que a página 1 do Google erra
Levantei os resultados que ocupam a busca por "teste de ansiedade" no Brasil. Vale saber o que você encontra por lá.
Uma página em primeiro lugar afirma que "somente médicos psiquiatras podem fazer o diagnóstico de doenças". Isso está incorreto no Brasil. A Lei 4.119/1962, no artigo 13, § 1º, alínea "a", define o diagnóstico psicológico como função privativa do psicólogo. É um site estrangeiro em português ranqueando em primeiro com uma afirmação errada sobre a legislação brasileira.
Outra publica um "teste baseado no GAD-7" com 8 itens — e transforma as quatro faixas em apenas duas, "com" ou "sem" sintomas significativos, perdendo justamente a gradação que o leitor foi buscar.
Duas páginas entregam o DASS-21 sob o rótulo de "teste de ansiedade". É outro instrumento, com janela de 7 dias em vez de 14 e faixas de corte completamente diferentes. Quem compara dois "testes de ansiedade" da mesma página de resultados recebe escalas incomparáveis, sem nenhum aviso.
Uma delas entrega o questionário completo e nenhuma interpretação — sem faixas, sem citar os autores, sem mencionar validação.
Um detalhe regulatório que quase ninguém sabe: nem todo questionário de saúde mental pode ser publicado livremente. O sistema de avaliação de instrumentos do Conselho Federal de Psicologia classifica o PHQ-9 como instrumento não privativo (análise de maio de 2020), enquanto o Inventário de Depressão de Beck, o Inventário de Ansiedade de Beck e a Escala de Ideação Suicida de Beck constam como testes psicológicos favoráveis — e o uso profissional de testes psicológicos é privativo do psicólogo, pela Resolução CFP 31/2022. Páginas que oferecem "teste de Beck online" para qualquer visitante estão em terreno diferente do que imaginam.
Perguntas frequentes
O que significa minha pontuação no GAD-7?
A soma vai de 0 a 21. O ponto de corte recomendado pelo manual oficial para procurar avaliação é 10 ou mais. As faixas "leve, moderada e grave" nos pontos 5, 10 e 15 foram propostas pelos autores por analogia à escala de depressão, no condicional, e nunca foram validadas como faixas de gravidade.
O GAD-7 diagnostica ansiedade?
Não. É um instrumento de rastreio. No estudo original, entre as pessoas que pontuaram 10 ou mais, apenas cerca de 3 em cada 10 tinham transtorno de ansiedade generalizada na entrevista clínica. Um número alto indica que vale procurar avaliação, não que existe um transtorno.
Pontuei alto. Preciso de remédio?
Essa não é uma conclusão que uma escala permite. Decisão sobre medicação é do médico, em avaliação individual, e boa parte dos quadros de ansiedade responde bem a psicoterapia sem medicação. O passo depois de um escore alto é conversar com um profissional, não iniciar tratamento.
O GAD-7 é validado no Brasil?
A versão em português brasileiro teve a estrutura e a fidedignidade analisadas em 2016, com bons resultados, e há evidências de validade para adolescentes publicadas em 2022. O que não existe é estudo brasileiro de validade de critério — ou seja, os pontos de corte usados aqui nunca foram testados contra diagnóstico clínico em amostra nacional.
Qual a diferença entre GAD-7, PHQ-9 e DASS-21?
O GAD-7 rastreia ansiedade em 7 itens, com janela de duas semanas. O PHQ-9 rastreia depressão em 9 itens, também em duas semanas. O DASS-21 mede depressão, ansiedade e estresse em 21 itens, com janela de uma semana e faixas de corte próprias. Não são intercambiáveis e os escores não se comparam entre si.
Posso repetir o teste para acompanhar meu progresso?
Sim, e esse é um uso legítimo — inclusive dentro da terapia, aplicado a cada quatro ou seis sessões. Acompanhar a variação do seu próprio escore ao longo do tempo é mais informativo do que interpretar um número isolado.
Leia também
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Fontes: Spitzer RL, Kroenke K, Williams JBW, Löwe B. A Brief Measure for Assessing Generalized Anxiety Disorder: The GAD-7. Arch Intern Med. 2006;166(10):1092-1097 · Kroenke K, Spitzer RL, Williams JBW. Instruction Manual — PHQ and GAD-7 Measures · Moreno AL et al. Temas em Psicologia, 2016;24(1):367-376 · Leite & Faro. Psico-USF, 2022;27(2):345-356 · SATEPSI/CFP · Resolução CFP 31/2022 · Lei 4.119/1962.
Este conteúdo é informativo, é rastreio e não fecha diagnóstico. Em risco à vida, ligue CVV 188 ou SAMU 192.
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