Uma crise de ansiedade no trabalho pede, nesta ordem:
- Sair do estímulo se puder — sala vazia, banheiro, câmera off.
- Regular o corpo por alguns minutos, sem fingir que nada aconteceu.
- Decidir se volta, se pede para sair ou se precisa de pronto-socorro.
- Dizer ao chefe uma necessidade funcional, sem script de diagnóstico.
Esconder a crise não é o objetivo. Seguir em segurança é. Ideação: CVV 188. Risco imediato: SAMU 192.
Resumo direto
- Os primeiros 10 minutos têm tempo: reconhecer, sair, regular, decidir.
- Banheiro ou sala vazia servem para baixar a ativação, não para montar um disfarce.
- Duas frases bastam para liderança ou RH: o que você precisa agora e quando atualiza.
- A empresa pode pedir atestado de ausência. Não pode exigir diagnóstico, prontuário nem relato de sessão.
- Dor no peito nova, desmaio, falta de ar que não cede ou primeira crise muito intensa pedem pronto-socorro — ansiedade e infarto se misturam no corpo.
- Quem assina afastamento é médico. Psicólogo não substitui isso.
- Depois da crise, o trabalho é reduzir a frequência — terapia, sono, carga — não treinar a esconder melhor.
Sumário
- Os 10 primeiros minutos
- Quatro cenários reais
- O que dizer ao chefe ou ao RH
- O que a empresa pode e não pode exigir
- Quando sair e ir ao pronto-socorro
- Depois da crise, no mesmo dia
- Perguntas frequentes
- Leia também
Os 10 primeiros minutos
Isto não é protocolo de emergência médica. É um roteiro para o corpo acelerado no meio do expediente, quando você ainda consegue se mover e se orientar. Se os sinais da seção de pronto-socorro aparecerem, ignore o relógio e saia.
0 a 1 minuto — nomeie o que está acontecendo. Coração disparado, mãos frias, onda de calor, vontade de sair correndo, pensamento de que vai desmaiar ou "passar vergonha". Dizer internamente "isto é uma crise de ansiedade" não cura nada. Impede o segundo terror: achar que é o fim.
1 a 3 minutos — saia do estímulo. Peça licença, mute o microfone, levante. Destino: banheiro, escada, sala de reunião vazia, varanda do home office. O critério é um lugar em que você consiga sentar e não precise atender ninguém por alguns minutos. Não é esconder. É reduzir input.
3 a 7 minutos — regular o corpo. Pés no chão. Expiração mais longa que a inspiração. Se a mente disparar, use o grounding 5-4-3-2-1: cinco coisas que você vê, quatro que toca, três que ouve, duas que cheira, uma que prova. Respiração com tempos está em Respiração para ansiedade: 4-7-8 ou diafragmática. Se uma técnica piorar, troque. Forçar calma costuma acelerar.
7 a 10 minutos — decida o próximo passo. Quatro saídas honestas:
- Voltar e seguir, se o pico baixou.
- Pedir mais 15 minutos e avisar quem precisa.
- Encerrar o expediente e ir embora.
- Ir ao pronto-socorro.
Nenhuma dessas saídas é "fraqueza". Ficar na cadeira fingindo que está bem, com o corpo em alarme, é o que piora o resto do dia — e é exatamente o que a busca por "disfarçar" ensina.
O protocolo geral, fora do escritório, está em Crise de ansiedade: o que fazer na hora, técnicas que ajudam e como prevenir.
Quer entender melhor seus padrões?
Um psicólogo pode te ajudar a transformar autoconhecimento em mudança prática.
Quatro cenários reais
O mesmo pico muda de forma conforme o palco. O que não muda: você não deve a si mesmo um espetáculo de normalidade.
Reunião presencial
Peça licença em uma frase curta — "preciso sair um minuto, já volto" — e saia. Não justifique o corpo. No corredor ou no banheiro, faça os minutos 3 a 7. Se ao voltar ainda estiver mal, sente-se perto da porta e avise a pessoa ao lado que pode precisar sair de novo. Interromper a reunião é preferível a desmaiar na cadeira ou explodir no meio de uma fala.
Call com câmera ligada
Desligue a câmera. Mute. Na mensagem do chat, uma linha: "estou passando mal, volto em 10 minutos" ou "preciso sair, acompanho a ata". Você não deve uma cara arrumada para a lente. Se a call for com cliente e não houver quem cubra, a mesma linha vale — o custo de sumir 10 minutos é menor do que o de atender em crise.
Atendimento ao cliente
Passe o atendimento. "Vou te transferir / já te retorno" é suficiente. Se você é a única pessoa na loja ou no caixa, peça a um colega ou encerre com a frase do mal-estar. Não force um sorriso de script enquanto o corpo dispara. Cliente espera cordialidade, não um ator.
Home office
Levante da cadeira. Vá para outro cômodo. Avise no chat que volta em 15 minutos. A casa remove o olhar alheio e, ao mesmo tempo, remove a desculpa de "não posso parar". Parar é o trabalho daqueles minutos. Se mora com alguém, você pode dizer "preciso de um tempo sozinho agora" — de novo, sem aula sobre o diagnóstico.
Em qualquer cenário, se a crise vier no meio de uma semana já no vermelho — insônia, irritação, exaustão — vale olhar se o quadro não está virando esgotamento. Crise pontual e burnout não são a mesma coisa; os dois pedem cuidado, e o segundo pede mudança de carga, não só técnica de respiração.
O que dizer ao chefe ou ao RH
A busca pede um roteiro. O que funciona é mais curto do que um desabafo e mais honesto do que uma desculpa inventada.
Na hora, duas frases:
- O que você precisa agora.
- Quando a outra pessoa recebe uma atualização.
Exemplos que não entregam diagnóstico:
- "Estou passando mal e preciso sair da reunião. Te atualizo em 20 minutos se sigo o expediente."
- "Preciso encerrar agora. Amanhã resolvo o que ficou pendente / mando atestado se for o caso."
- "Não vou conseguir atender o cliente desta vez. Pode alguém assumir? Eu retorno depois."
O que esses textos fazem: pedem um ajuste de tarefa. O que eles não fazem: nomear transtorno, contar história clínica, pedir desculpas pelo corpo.
Você pode revelar o diagnóstico se quiser. Essa é uma escolha sua, não uma obrigação e não um dever moral. Revelar num pico, no corredor, costuma sair pior do que revelar numa conversa marcada, quando você já sabe o que está pedindo — horário, home office pontual, menos reuniões empilhadas.
Se a conversa for com RH e não for urgente, prepare o pedido em comunicação assertiva: fato, necessidade, prazo. "Tenho tido crises no meio do expediente. Preciso de 15 minutos de pausa quando acontecer, e de não empilhar três calls seguidas nas manhãs." Isso é funcional. Não é laudo.
O que não dizer só para "passar": invenção de doença infecciosa, mentira elaborada, piada sobre "ataque de nervos". Mentira vira um segundo problema. Silêncio absoluto, quando você precisa sair, também. O meio-termo é a necessidade, sem aula.
O que a empresa pode e não pode exigir
Isto não é parecer jurídico. É o recorte que evita duas armadilhas: achar que você deve o prontuário, e achar que a empresa não pode pedir nada.
Pode. Pedir atestado para justificar falta. Encaminhar ao serviço de saúde ocupacional. Organizar a cobertura da sua ausência. Cobrar o trabalho que é seu, em outro horário ou por outro combinado.
Não pode. Exigir o nome do diagnóstico. Exigir o CID no atestado se você não autorizou — a Resolução CFM 2.381/2024 só inclui o CID por dever legal ou a pedido escrito do paciente. Exigir relatório de sessão, prontuário ou conversa com o psicólogo. Transformar dado de saúde em fofoca de equipe.
Dado de saúde é dado sensível pela LGPD. Quem recebe atestado na empresa tem dever de sigilo. Se o RH pedir "o que você tem, exatamente", a resposta honesta é: "é questão de saúde, o atestado cobre a ausência; o detalhe clínico fica comigo e com o médico."
Afastamento. Quem emite atestado com finalidade de afastar do trabalho é médico. Qualquer médico com CRM, não só psiquiatra. Psicólogo emite outros documentos; a aceitação pelo empregador é facultativa. A cadeia completa — 15 dias, INSS, CID — está em Afastamento por ansiedade: quem dá o atestado e como funciona.
Este texto não ensina a obter afastamento. Ensina a atravessar a hora sem se obrigar a um disfarce.
Quer entender melhor seus padrões?
Um psicólogo pode te ajudar a transformar autoconhecimento em mudança prática.
Quando sair e ir ao pronto-socorro
Ansiedade imita coração, pulmão e cabeça. Na dúvida de primeira vez, vá. Errar para o lado do médico é o certo.
Saia e procure emergência se houver:
- Dor no peito nova, forte, que irradia para braço, mandíbula ou costas, com suor frio ou náusea.
- Falta de ar que não cede depois de alguns minutos fora do estímulo.
- Desmaio, quase desmaio que não passa, fala embaralhada, fraqueza de um lado do corpo.
- Primeira crise muito intensa, sem histórico, e você não consegue se orientar.
- Uso recente de estimulante, álcool em excesso ou substância que você não conhece.
- Pensamento de se matar, de se machucar, ou certeza de que não atravessa o dia.
Canais: SAMU 192. Pronto-socorro ou UPA. CAPS do município, sem agendamento, em crise. CVV 188, telefone 24 horas — e chat em cvv.org.br, com horário próprio.
A tabela que separa o que costuma ser ansiedade do que pede investigação cardíaca está em Ansiedade ou infarto: 8 diferenças e quando ir ao pronto-socorro. Nenhum texto substitui o exame.
Não dirija se estiver tontando, com visão escura ou com o corpo fora de controle. Peça ajuda, chame um colega, chame o SAMU.
Depois da crise, no mesmo dia
Quando o pico baixa, vem a vergonha. É o momento em que a busca por "disfarçar" volta. Resista a transformar o resto do expediente numa performance.
No trabalho. Se voltou, faça a tarefa seguinte mais simples — e-mail, ata, uma ligação curta. Se não voltou, avise quem precisa e pare. Não recupere a hora "perdida" no mesmo dia com hora extra. O sistema nervoso não fecha o expediente no vermelho.
Em casa. Água, comida, sono. Evite café e álcool nas horas seguintes: um estimula, o outro desorganiza o sono e devolve ansiedade de madrugada.
Na semana. Uma crise isolada acontece. Crise repetida no mesmo corredor, na mesma call, no mesmo cliente é padrão. Padrão pede avaliação — psicólogo, e médico se houver dúvida cardíaca, se já houver medicação ou se o corpo estiver assustando. Marcar sessão não é "fazer tempestade". É o contrário de esperar a próxima reunião para improvisar de novo.
Perguntas frequentes
O que fazer numa crise de ansiedade no trabalho?
Saia do estímulo se puder, sente, alongue a expiração, use grounding se a mente disparar, e em dez minutos decida se volta, se pede mais tempo ou se vai embora. Se houver dor no peito nova, desmaio, falta de ar que não cede ou ideação, o destino é emergência, não a mesa.
Como falar com o chefe sem contar o diagnóstico?
Duas frases: o que você precisa agora e quando atualiza. "Estou passando mal e preciso de 20 minutos. Depois te digo se sigo o expediente." Diagnóstico é opcional e, se for dito, fica melhor numa conversa marcada do que no corredor, no pico.
Preciso disfarçar a crise para ninguém perceber?
Não. A busca por disfarce é vergonha, não método. Sair alguns minutos e nomear uma necessidade funcional protege você e a tarefa. Ficar na cadeira fingindo normalidade mantém o corpo em alarme e atrasa o pedido de ajuda.
A empresa pode me obrigar a contar o que eu tenho?
Não. Dado de saúde é sensível. A empresa pode pedir atestado de ausência e encaminhar à saúde ocupacional. Não pode exigir diagnóstico, CID sem o seu pedido, prontuário nem relato de sessão.
Quando a crise no escritório vira emergência?
Dor no peito irradiada, suor frio, falta de ar que não cede, desmaio, sintomas neurológicos, primeira crise muito intensa ou pensamento de morte. SAMU 192. CVV 188 se houver ideação. Na dúvida de primeira vez, vá ao pronto-socorro.
Psicólogo resolve atestado para eu ir embora?
Quem assina atestado com finalidade de afastamento do trabalho é médico, pela Resolução CFM 2.381/2024. Psicólogo emite outros documentos, e a aceitação pelo empregador é facultativa. Para a crise de hoje, o que importa é sair em segurança; o papel vem depois, com quem pode assiná-lo.
Quer entender melhor seus padrões?
Um psicólogo pode te ajudar a transformar autoconhecimento em mudança prática.
Leia também
- Crise de ansiedade: o que fazer na hora, técnicas que ajudam e como prevenir
- Burnout: sintomas, causas, diferença para estresse e como tratar o esgotamento
- Comunicação assertiva: como dizer “não”, pedir o que você precisa e colocar limites
- Ansiedade ou infarto: 8 diferenças e quando ir ao pronto-socorro
- Afastamento por ansiedade: quem dá o atestado e como funciona
Fontes: DSM-5-TR, critérios de ataque de pânico · Resolução CFM nº 2.381/2024 · Lei 13.709/2018 (LGPD), dado de saúde como dado sensível · Conselho Federal de Psicologia — Resolução CFP 06/2019, documentos escritos.
Este conteúdo é informativo, não fecha diagnóstico e não substitui avaliação profissional. Em sofrimento intenso, CVV 188 (telefone, 24h) · CAPS · Emergência, SAMU 192.
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