Antes de tudo: isto é rastreio, não diagnóstico. E há dois fatos sobre o ASRS que praticamente nenhuma página em português menciona — os dois mudam como você deve ler o seu resultado.
Primeiro: os próprios autores recomendaram usar a versão de 6 itens em vez da de 18. No estudo original, o screener curto superou a escala completa em todos os índices.
Segundo: o ASRS-v1.1 é calibrado pelos critérios do DSM-IV, não do DSM-5. Existe uma escala mais nova, de 2017, feita para o DSM-5 — e ela tem desempenho bem melhor.
Resumo direto
- 18 itens no total: os 6 primeiros formam a Parte A (o screener); os outros 12 são a Parte B.
- Regra de rastreio positivo: 4 ou mais marcações na área sombreada da Parte A.
- A Parte B não tem pontuação. Não existe escore total nem "nota" do ASRS-18.
- No estudo original, o screener de 6 itens teve sensibilidade 68,7% contra 56,3% da escala completa.
- A adaptação brasileira de 2006 estabeleceu equivalência de tradução, não pontos de corte nacionais.
- O instrumento cobre um dos cinco critérios diagnósticos.
Sumário
- Como o instrumento é estruturado
- A regra das 4 marcações
- Por que os autores preferem a versão curta
- O detalhe do DSM-IV
- O que existe no Brasil
- O que o ASRS não faz
- Perguntas frequentes
- Leia também
Como o instrumento é estruturado
O ASRS-v1.1 — Adult ADHD Self-Report Scale — é uma lista de 18 itens que perguntam sobre a frequência de sintomas, com janela de 6 meses.
Ele foi desenvolvido em conjunto com a Organização Mundial da Saúde e o Workgroup on Adult ADHD, formado por Lenard Adler, Ronald Kessler e Thomas Spencer. O vínculo com a OMS é específico: o instrumento nasceu junto com a revisão da entrevista diagnóstica internacional da organização.
A estrutura tem duas partes:
| O que é | Pontuação | |
|---|---|---|
| Parte A (itens 1 a 6) | O screener propriamente dito | Regra das 4 marcações |
| Parte B (itens 7 a 18) | Perguntas adicionais | Sem escore total |
Essa divisão é a primeira coisa que os testes online costumam ignorar — eles somam os 18 itens e entregam uma "nota", o que o instrumento não prevê.
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A regra das 4 marcações
A regra oficial é simples e não envolve soma.
Na Parte A, algumas caixas de resposta estão sombreadas — as caixas variam de item para item, porque o corte de frequência não é o mesmo para todos. Se você marcou quatro ou mais respostas dentro das áreas sombreadas, o rastreio é positivo.
A formulação oficial do instrumento diz que, nesse caso, os sintomas são altamente compatíveis com TDAH em adultos e que uma investigação mais aprofundada se justifica.
A versão em português publicada pelo Senado Federal traz a mesma regra: quatro ou mais marcações na área sombreada da Parte A indicam necessidade de investigação mais precisa.
Sobre a Parte B: ela não tem pontuação total nem indica probabilidade diagnóstica. Serve como pista adicional para aprofundar a entrevista clínica. Se você viu um site entregando "seu escore ASRS-18 foi X", esse número não existe no instrumento.
Por que os autores preferem a versão curta
Este é o achado mais contraintuitivo, e vem do estudo original de validação.
Comparando o screener de 6 itens com a escala completa de 18, numa amostra comunitária:
| Índice | Screener (6 itens) | Escala completa (18 itens) |
|---|---|---|
| Sensibilidade | 68,7% | 56,3% |
| Especificidade | 99,5% | 98,3% |
| Acurácia total | 97,9% | 96,2% |
| Kappa | 0,76 | 0,58 |
O screener venceu em todos os índices. E os autores foram explícitos na conclusão: até haver calibração clínica em amostras maiores, o screener de 6 itens deve ser preferido à escala completa, tanto em pesquisa populacional quanto na busca ativa de casos na clínica.
Ou seja: responder aos 18 itens não torna o rastreio mais preciso. Torna menos.
Um estudo posterior, com 668 participantes, encontrou área sob a curva de 0,90 para o screener de 6 itens contra o diagnóstico clínico — bom desempenho —, com consistência interna entre 0,63 e 0,72 e confiabilidade teste-reteste entre 0,58 e 0,77.
O detalhe do DSM-IV
O ASRS-v1.1 foi construído sobre os critérios do DSM-IV-TR — manual anterior ao atual.
Isso importa porque o DSM-IV era mais restrito que o DSM-5 em pontos relevantes para adultos: exigia início dos sintomas antes dos 7 anos (o DSM-5 ampliou para 12) e 6 sintomas para todas as idades (o DSM-5-TR pede 5 a partir dos 17 anos).
Em 2017, a OMS publicou uma escala de rastreio atualizada e diferente, com 6 perguntas, calibrada para o DSM-5. O desempenho dela:
| Dados populacionais | Amostra clínica | |
|---|---|---|
| Sensibilidade | 91,4% | 91,9% |
| Especificidade | 96,0% | 74,0% |
| Área sob a curva | 0,94 | 0,83 |
| Valor preditivo positivo | 67,3% | 82,8% |
Compare com os 68,7% de sensibilidade do screener antigo. A escala de 2017 é substancialmente melhor — e é ela que praticamente nenhum site brasileiro usa.
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O que existe no Brasil
A adaptação brasileira do ASRS-18 foi publicada em 2006 por Paulo Mattos, Daniel Segenreich, Eloísa Saboya, Mário Louzã, Gabriela Dias e Marcos Romano, na Revista de Psiquiatria Clínica.
O que esse trabalho fez: adaptação transcultural — tradução, retrotradução e debriefing —, estabelecendo equivalência satisfatória entre as versões.
O que ele não fez: estabelecer propriedades psicométricas ou pontos de corte para a população brasileira. Os próprios autores afirmaram, à época, que não havia dados que permitissem estabelecer pontos de corte para suspeição de TDAH no Brasil, e estimularam o uso do instrumento em amostras epidemiológicas brasileiras.
Ou seja: a regra das quatro marcações que você aplica aqui veio de um estudo americano, e ninguém verificou se ela funciona igual no Brasil.
Um registro de transparência: não consegui confirmar as condições de licença e de direito autoral do ASRS-v1.1 para reprodução em site comercial de terceiros. Por isso este texto explica como o instrumento funciona, mas não reproduz os 18 itens. Se você quer respondê-lo, o caminho correto é com um profissional, ou pela versão publicada por fonte institucional oficial.
O que o ASRS não faz
O diagnóstico de TDAH exige cinco coisas. O ASRS cobre uma.
| Critério | O ASRS cobre? |
|---|---|
| A — sintomas em número suficiente | Sim, é exatamente isso que ele mede |
| B — presença antes dos 12 anos | Não |
| C — sintomas em dois ou mais ambientes | Não |
| D — prejuízo funcional claro | Não |
| E — não melhor explicado por outro transtorno | Não |
E o Critério E é o mais decisivo. O manual nomeia explicitamente a ansiedade entre as condições que, se explicam melhor o quadro, afastam o diagnóstico de TDAH. Há pesquisa mostrando que uma parcela grande de adultos com transtorno de ansiedade diagnosticado "dá positivo" no rastreio de TDAH — o que está detalhado em TDAH ou ansiedade? A tabela que separa os dois.
Na prática: rastreio positivo significa "vale investigar". Nada além disso.
Perguntas frequentes
Como se pontua o ASRS?
Não se soma. Na Parte A, formada pelos 6 primeiros itens, algumas caixas de resposta são sombreadas. Quatro ou mais marcações dentro dessas áreas caracterizam rastreio positivo, o que o instrumento descreve como sintomas altamente compatíveis com TDAH em adultos, justificando investigação mais aprofundada. A Parte B não tem escore total.
O ASRS-18 é melhor que a versão de 6 itens?
Não. No estudo original, o screener de 6 itens superou a escala completa em todos os índices — sensibilidade 68,7% contra 56,3%, especificidade 99,5% contra 98,3% e kappa 0,76 contra 0,58. Os autores recomendaram explicitamente preferir a versão curta.
O ASRS diagnostica TDAH?
Não. Ele cobre apenas o critério de sintomas, que é um dos cinco exigidos. Ficam de fora a presença antes dos 12 anos, a manifestação em dois ou mais ambientes, o prejuízo funcional e a exclusão de outros transtornos — sendo a ansiedade nomeada explicitamente no manual.
O ASRS é validado no Brasil?
Existe adaptação transcultural publicada em 2006, que estabeleceu equivalência satisfatória entre as versões em português e inglês. Ela não estabeleceu propriedades psicométricas nem pontos de corte para a população brasileira, e os próprios autores registraram essa lacuna à época.
Existe uma versão mais atual?
Sim. Em 2017 a OMS publicou uma escala de rastreio diferente, com 6 perguntas, calibrada para o DSM-5, com sensibilidade de 91,4% e área sob a curva de 0,94 em dados populacionais. O ASRS-v1.1 que circula na internet é calibrado pelo DSM-IV.
Dei positivo no rastreio. E agora?
O passo seguinte é avaliação profissional, com entrevista clínica detalhada e história de desenvolvimento. Leve o resultado, mas leve também material sobre a sua infância — o critério de início antes dos 12 anos exige evidência, e memória própria costuma não bastar.
Quer entender melhor seus padrões?
Um psicólogo pode te ajudar a transformar autoconhecimento em mudança prática.
Leia também
- TDAH em adultos: 12 sinais que passam despercebidos
- TDAH ou ansiedade? A tabela que separa os dois
- Diagnóstico de TDAH: como é feito e quem pode diagnosticar
- Laudo, relatório ou atestado de TDAH: qual documento vale onde
Fontes: Instrumento oficial ASRS-v1.1 Symptom Checklist (OMS / Workgroup on Adult ADHD) · Kessler RC et al., Psychological Medicine 2005;35(2) · Kessler RC, Adler LA et al., Validity of the WHO Adult ADHD Self-Report Scale · Ustun B et al., JAMA Psychiatry 2017 · Mattos P et al., Rev Psiquiatr Clín 2006;33(4):188-194 · Senado Federal, Serviço Integrado de Saúde.
Este conteúdo é informativo, é rastreio e não fecha diagnóstico.
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