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Teste ASRS-18 de TDAH em adultos: como funciona o rastreio e o que ele não diagnostica

Antes de tudo: isto é rastreio, não diagnóstico. E há dois fatos sobre o ASRS que praticamente nenhuma página em português menciona — os dois mudam como você...

Equipe Pratimed22 de agosto de 20269 min de leitura
Teste ASRS-18 de TDAH em adultos: como funciona o rastreio
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Antes de tudo: isto é rastreio, não diagnóstico. E há dois fatos sobre o ASRS que praticamente nenhuma página em português menciona — os dois mudam como você deve ler o seu resultado.

Primeiro: os próprios autores recomendaram usar a versão de 6 itens em vez da de 18. No estudo original, o screener curto superou a escala completa em todos os índices.

Segundo: o ASRS-v1.1 é calibrado pelos critérios do DSM-IV, não do DSM-5. Existe uma escala mais nova, de 2017, feita para o DSM-5 — e ela tem desempenho bem melhor.


Resumo direto

  • 18 itens no total: os 6 primeiros formam a Parte A (o screener); os outros 12 são a Parte B.
  • Regra de rastreio positivo: 4 ou mais marcações na área sombreada da Parte A.
  • A Parte B não tem pontuação. Não existe escore total nem "nota" do ASRS-18.
  • No estudo original, o screener de 6 itens teve sensibilidade 68,7% contra 56,3% da escala completa.
  • A adaptação brasileira de 2006 estabeleceu equivalência de tradução, não pontos de corte nacionais.
  • O instrumento cobre um dos cinco critérios diagnósticos.

Sumário


Como o instrumento é estruturado

O ASRS-v1.1 — Adult ADHD Self-Report Scale — é uma lista de 18 itens que perguntam sobre a frequência de sintomas, com janela de 6 meses.

Ele foi desenvolvido em conjunto com a Organização Mundial da Saúde e o Workgroup on Adult ADHD, formado por Lenard Adler, Ronald Kessler e Thomas Spencer. O vínculo com a OMS é específico: o instrumento nasceu junto com a revisão da entrevista diagnóstica internacional da organização.

A estrutura tem duas partes:

O que éPontuação
Parte A (itens 1 a 6)O screener propriamente ditoRegra das 4 marcações
Parte B (itens 7 a 18)Perguntas adicionaisSem escore total

Essa divisão é a primeira coisa que os testes online costumam ignorar — eles somam os 18 itens e entregam uma "nota", o que o instrumento não prevê.


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A regra das 4 marcações

A regra oficial é simples e não envolve soma.

Na Parte A, algumas caixas de resposta estão sombreadas — as caixas variam de item para item, porque o corte de frequência não é o mesmo para todos. Se você marcou quatro ou mais respostas dentro das áreas sombreadas, o rastreio é positivo.

A formulação oficial do instrumento diz que, nesse caso, os sintomas são altamente compatíveis com TDAH em adultos e que uma investigação mais aprofundada se justifica.

A versão em português publicada pelo Senado Federal traz a mesma regra: quatro ou mais marcações na área sombreada da Parte A indicam necessidade de investigação mais precisa.

Sobre a Parte B: ela não tem pontuação total nem indica probabilidade diagnóstica. Serve como pista adicional para aprofundar a entrevista clínica. Se você viu um site entregando "seu escore ASRS-18 foi X", esse número não existe no instrumento.


Por que os autores preferem a versão curta

Este é o achado mais contraintuitivo, e vem do estudo original de validação.

Comparando o screener de 6 itens com a escala completa de 18, numa amostra comunitária:

ÍndiceScreener (6 itens)Escala completa (18 itens)
Sensibilidade68,7%56,3%
Especificidade99,5%98,3%
Acurácia total97,9%96,2%
Kappa0,760,58

O screener venceu em todos os índices. E os autores foram explícitos na conclusão: até haver calibração clínica em amostras maiores, o screener de 6 itens deve ser preferido à escala completa, tanto em pesquisa populacional quanto na busca ativa de casos na clínica.

Ou seja: responder aos 18 itens não torna o rastreio mais preciso. Torna menos.

Um estudo posterior, com 668 participantes, encontrou área sob a curva de 0,90 para o screener de 6 itens contra o diagnóstico clínico — bom desempenho —, com consistência interna entre 0,63 e 0,72 e confiabilidade teste-reteste entre 0,58 e 0,77.


O detalhe do DSM-IV

O ASRS-v1.1 foi construído sobre os critérios do DSM-IV-TR — manual anterior ao atual.

Isso importa porque o DSM-IV era mais restrito que o DSM-5 em pontos relevantes para adultos: exigia início dos sintomas antes dos 7 anos (o DSM-5 ampliou para 12) e 6 sintomas para todas as idades (o DSM-5-TR pede 5 a partir dos 17 anos).

Em 2017, a OMS publicou uma escala de rastreio atualizada e diferente, com 6 perguntas, calibrada para o DSM-5. O desempenho dela:

Dados populacionaisAmostra clínica
Sensibilidade91,4%91,9%
Especificidade96,0%74,0%
Área sob a curva0,940,83
Valor preditivo positivo67,3%82,8%

Compare com os 68,7% de sensibilidade do screener antigo. A escala de 2017 é substancialmente melhor — e é ela que praticamente nenhum site brasileiro usa.


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O que existe no Brasil

A adaptação brasileira do ASRS-18 foi publicada em 2006 por Paulo Mattos, Daniel Segenreich, Eloísa Saboya, Mário Louzã, Gabriela Dias e Marcos Romano, na Revista de Psiquiatria Clínica.

O que esse trabalho fez: adaptação transcultural — tradução, retrotradução e debriefing —, estabelecendo equivalência satisfatória entre as versões.

O que ele não fez: estabelecer propriedades psicométricas ou pontos de corte para a população brasileira. Os próprios autores afirmaram, à época, que não havia dados que permitissem estabelecer pontos de corte para suspeição de TDAH no Brasil, e estimularam o uso do instrumento em amostras epidemiológicas brasileiras.

Ou seja: a regra das quatro marcações que você aplica aqui veio de um estudo americano, e ninguém verificou se ela funciona igual no Brasil.

Um registro de transparência: não consegui confirmar as condições de licença e de direito autoral do ASRS-v1.1 para reprodução em site comercial de terceiros. Por isso este texto explica como o instrumento funciona, mas não reproduz os 18 itens. Se você quer respondê-lo, o caminho correto é com um profissional, ou pela versão publicada por fonte institucional oficial.


O que o ASRS não faz

O diagnóstico de TDAH exige cinco coisas. O ASRS cobre uma.

CritérioO ASRS cobre?
A — sintomas em número suficienteSim, é exatamente isso que ele mede
B — presença antes dos 12 anosNão
C — sintomas em dois ou mais ambientesNão
D — prejuízo funcional claroNão
E — não melhor explicado por outro transtornoNão

E o Critério E é o mais decisivo. O manual nomeia explicitamente a ansiedade entre as condições que, se explicam melhor o quadro, afastam o diagnóstico de TDAH. Há pesquisa mostrando que uma parcela grande de adultos com transtorno de ansiedade diagnosticado "dá positivo" no rastreio de TDAH — o que está detalhado em TDAH ou ansiedade? A tabela que separa os dois.

Na prática: rastreio positivo significa "vale investigar". Nada além disso.


Perguntas frequentes

Como se pontua o ASRS?

Não se soma. Na Parte A, formada pelos 6 primeiros itens, algumas caixas de resposta são sombreadas. Quatro ou mais marcações dentro dessas áreas caracterizam rastreio positivo, o que o instrumento descreve como sintomas altamente compatíveis com TDAH em adultos, justificando investigação mais aprofundada. A Parte B não tem escore total.

O ASRS-18 é melhor que a versão de 6 itens?

Não. No estudo original, o screener de 6 itens superou a escala completa em todos os índices — sensibilidade 68,7% contra 56,3%, especificidade 99,5% contra 98,3% e kappa 0,76 contra 0,58. Os autores recomendaram explicitamente preferir a versão curta.

O ASRS diagnostica TDAH?

Não. Ele cobre apenas o critério de sintomas, que é um dos cinco exigidos. Ficam de fora a presença antes dos 12 anos, a manifestação em dois ou mais ambientes, o prejuízo funcional e a exclusão de outros transtornos — sendo a ansiedade nomeada explicitamente no manual.

O ASRS é validado no Brasil?

Existe adaptação transcultural publicada em 2006, que estabeleceu equivalência satisfatória entre as versões em português e inglês. Ela não estabeleceu propriedades psicométricas nem pontos de corte para a população brasileira, e os próprios autores registraram essa lacuna à época.

Existe uma versão mais atual?

Sim. Em 2017 a OMS publicou uma escala de rastreio diferente, com 6 perguntas, calibrada para o DSM-5, com sensibilidade de 91,4% e área sob a curva de 0,94 em dados populacionais. O ASRS-v1.1 que circula na internet é calibrado pelo DSM-IV.

Dei positivo no rastreio. E agora?

O passo seguinte é avaliação profissional, com entrevista clínica detalhada e história de desenvolvimento. Leve o resultado, mas leve também material sobre a sua infância — o critério de início antes dos 12 anos exige evidência, e memória própria costuma não bastar.


Quer entender melhor seus padrões?

Um psicólogo pode te ajudar a transformar autoconhecimento em mudança prática.

Leia também


Fontes: Instrumento oficial ASRS-v1.1 Symptom Checklist (OMS / Workgroup on Adult ADHD) · Kessler RC et al., Psychological Medicine 2005;35(2) · Kessler RC, Adler LA et al., Validity of the WHO Adult ADHD Self-Report Scale · Ustun B et al., JAMA Psychiatry 2017 · Mattos P et al., Rev Psiquiatr Clín 2006;33(4):188-194 · Senado Federal, Serviço Integrado de Saúde.

Este conteúdo é informativo, é rastreio e não fecha diagnóstico.

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