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Por que homens não fazem terapia: as barreiras reais e como é a primeira sessão

Quando o vocabulário emocional é pouco treinado, o sofrimento tende a se expressar por outras vias: tensão muscular, dor de estômago, insônia, irritabilidade e...

Equipe Pratimed22 de agosto de 202611 min de leitura
Por que homens não fazem terapia: as barreiras reais e como é a primeira sessão
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Quando o vocabulário emocional é pouco treinado, o sofrimento tende a se expressar por outras vias: tensão muscular, dor de estômago, insônia, irritabilidade e queda de desempenho no trabalho.

É por isso que muitos homens chegam à terapia com queixa física ou de produtividade, e não com a palavra "tristeza".

Na primeira sessão não é preciso saber nomear nada. Descrever o sintoma e a rotina já é material suficiente para o psicólogo trabalhar.


Resumo direto

  • Em 2019, apenas 30,1% de quem usou a Atenção Primária no Brasil eram homens.
  • 70,4% dos homens avaliam a própria saúde como boa ou muito boa, contra 62,3% das mulheres.
  • Entre os brasileiros com diagnóstico de depressão, menos de 1 em 5 faz psicoterapia.
  • Uma revisão com 37 estudos mostra que normas masculinas tradicionais agem em três frentes: nos sintomas, na decisão de buscar ajuda e no manejo do quadro.
  • A mesma revisão aponta o caminho oposto ao da culpa: flexibilizar a masculinidade aumenta a busca de ajuda.
  • A psicologia brasileira é 79,2% feminina — o que é contexto de mercado, não indicativo de resultado.

Sumário


A barreira não é só à terapia

O dado mais revelador não é sobre psicologia — é sobre saúde em geral.

Na Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, apenas 30,1% de quem usou a Atenção Primária à Saúde eram homens, contra 69,9% de mulheres.

Parte dessa diferença se explica por demanda feminina específica, como pré-natal e saúde reprodutiva. Mas a distância é grande demais para se explicar só por isso.

O outro lado do mesmo dado: 70,4% dos homens brasileiros avaliam a própria saúde como boa ou muito boa, contra 62,3% das mulheres.

Isso não significa que os homens "mentem" ou "estão em negação" — é percepção declarada, e a literatura sobre masculinidades a interpreta como autossuficiência normativa: a ideia, aprendida, de que dar conta sozinho é parte do que se espera.

E na saúde mental especificamente: entre os brasileiros com diagnóstico de depressão, apenas 18,9% faziam psicoterapia. Quanto a medicamento, o uso nas duas semanas anteriores foi de 43,8% entre homens e 49,3% entre mulheres.

O levantamento não abre o dado de psicoterapia por sexo — então não inventamos esse recorte.

Contexto adicional, com atribuição: um levantamento divulgado em 2025 pela plataforma privada de telessaúde Conexa, sobre mais de 595 mil consultas entre janeiro e novembro daquele ano, aponta que 29,6% dos atendimentos de psicologia foram feitos por homens, com média de 3 consultas por homem contra 4 por mulher, e apenas 22,2% entre pacientes com 50 anos ou mais. É base de clientes de uma empresa, não amostra probabilística do Brasil — e a Pratimed atua no mesmo mercado.


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As três frentes das normas masculinas

Uma revisão sistemática com 37 estudos (de 1.927 identificados) concluiu que a adesão a normas masculinas tradicionais age em três frentes ao mesmo tempo:

1. Nos sintomas e em como o homem os expressa. O sofrimento aparece por vias socialmente mais aceitáveis — raiva, trabalho, corpo.

2. Na atitude e na decisão de buscar ajuda. Pedir ajuda entra em conflito com a autossuficiência esperada.

3. Na forma como ele maneja o quadro. Estratégias solitárias — mais trabalho, mais álcool, isolamento — em vez de compartilhadas.

O ponto que a própria revisão faz, e que muda o tom desta conversa: o caminho não é atacar "a masculinidade". É reenquadrar uma masculinidade mais flexível, que comporte a depressão — o que aumenta a busca de ajuda.

Culpar o leitor por ser como foi ensinado a ser não ajuda ninguém a marcar consulta.

Revisão internacional, majoritariamente anglófona. Não localizamos revisão brasileira equivalente.


Por onde o sofrimento sai

Quando não há vocabulário treinado para nomear estado emocional, o corpo e o comportamento fazem o relato.

O que costuma aparecer primeiro:

  • Sono. Dificuldade para dormir, ou dormir e acordar sem descanso.
  • Corpo. Tensão muscular, dor de cabeça, dor de estômago, aperto no peito.
  • Pavio curto. Irritação desproporcional com coisas pequenas.
  • Desempenho. Concentração pior, produtividade em queda — ou o oposto, trabalho como fuga.
  • Consumo. Aumento de álcool ou de outras substâncias.
  • Retração. Menos contato com amigos, menos coisas que davam prazer.

Nada disso é diagnóstico. Cada um desses sinais aparece em muitos contextos, e alguns têm causas clínicas — o que faz da avaliação médica um passo legítimo, não um desvio.

O que é informação útil: a mudança em relação ao seu padrão, mantida por semanas.

Sobre esse padrão em detalhe, veja Depressão em homens: quando aparece como raiva, álcool e trabalho.


As objeções mais comuns — respondidas

"Não tenho nada tão grave." Terapia não é só para crise. O critério não é gravidade — é se algo está atrapalhando ou incomodando de forma persistente.

"Não sei falar dessas coisas." Você não precisa. Descrever o sintoma e a rotina é suficiente para começar. Nomear é parte do trabalho, não pré-requisito.

"Vou ficar remoendo o passado." Depende da abordagem e do combinado. Várias abordagens trabalham fundamentalmente no presente e em objetivos concretos.

"Prefiro resolver sozinho." Faz sentido — e é exatamente a norma que a revisão de 37 estudos identifica como barreira. A pergunta prática é outra: está funcionando?

"Não tenho tempo." Sessões online costumam ocupar uma hora, sem deslocamento. Muitas plataformas têm horários fora do expediente.

"É caro." Existe faixa ampla de preço, atendimento social e a rede pública (UBS e CAPS). Sobre preço, veja a tabela de honorários do CFP: o que é o valor de referência.

"Se eu começar, vou ter que ir para sempre." Não. Duração é combinada e revista ao longo do processo.


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Como é a primeira sessão

Para quem nunca foi, o roteiro do que costuma acontecer.

Não tem divã, e você não precisa deitar. É uma conversa, sentado, presencial ou por vídeo.

Quem conduz é o profissional. Você não precisa saber por onde começar — a primeira sessão tem perguntas.

O que costuma ser perguntado: o que te trouxe, desde quando, o que já tentou, como estão sono, apetite, trabalho e relações, se há histórico de tratamento e se há uso de medicação.

Você pode dizer que não sabe explicar. "Não sei o que está acontecendo, só sei que não estou bem" é uma frase perfeitamente utilizável.

Você não precisa contar tudo. Nada obriga você a falar de assunto nenhum na primeira conversa — nem em nenhuma.

Não sai diagnóstico ao final. A primeira sessão é de avaliação inicial. Diagnóstico, quando cabe, vem depois.

Sigilo. O que é dito ali é sigiloso, com exceções previstas no Código de Ética e explicadas pelo profissional — pergunte na primeira sessão como isso funciona.

No fim, combina-se o próximo passo: frequência, objetivos, e se faz sentido continuar com aquele profissional.

E se não engatar: trocar não é fracasso. A relação com o profissional é parte do que faz o processo funcionar.


O que levar

Nada é obrigatório, mas ajuda:

  • Quando começou o que te incomoda.
  • O que mudou na sua rotina desde então.
  • Como estão sono, apetite, álcool, trabalho e relações.
  • O que você já tentou.
  • Medicações em uso, inclusive as que não são psiquiátricas.
  • Exames recentes, se houver queixa física.
  • Uma pergunta sua — qualquer uma.

Psicólogo homem ou mulher?

Pergunta legítima e frequente. Um dado de contexto: a psicologia brasileira é uma profissão majoritariamente feminina — 79,2% mulheres e 20,1% homens, segundo o censo da categoria.

O que esse dado é: contexto de mercado. Se você tem preferência, ela existe e pode ser filtrada.

O que ele não é: indicativo de resultado. Não há evidência brasileira de que o gênero do terapeuta determine o desfecho do tratamento, e sugerir o contrário seria injusto com pacientes e com profissionais.

O que a pesquisa aponta como decisivo — inclusive em estudos com pessoas relutantes — é a qualidade da relação: sentir-se tratado como pessoa, e não como caso.


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Terapia e remédio não são excludentes

Ponto que gera confusão e merece ser dito com clareza:

Psicoterapia e tratamento medicamentoso não são alternativas rivais. Em muitos casos são combinados, e a decisão é clínica.

Quem prescreve, ajusta e suspende medicação é médico — psiquiatra, em geral. O psicólogo não prescreve.

Nunca inicie, troque ou interrompa medicação por conta própria.

Se você não sabe por qual profissional começar, veja Psicólogo ou psiquiatra: qual procurar primeiro no seu caso.


Quando não dá para adiar

  • Pensamentos de morte ou de se machucar.
  • Sensação de que você pode perder o controle.
  • Uso de álcool ou outras substâncias fora do seu controle.
  • Incapacidade de cumprir o básico do dia.
  • Alguém próximo demonstrou preocupação séria.

Canais:

  • CVV 188 — telefone gratuito, 24 horas, todos os dias.
  • CAPS mais próximo. CAPS AD, para álcool e outras drogas.
  • SAMU 192 — emergência.
  • UPA ou pronto-socorro, em risco imediato.

Uma nota de contexto: o Brasil tem uma política nacional de saúde voltada especificamente à população masculina, instituída pela Portaria GM/MS nº 1.944, de 27/08/2009. Saúde mental não aparece entre os eixos listados na página oficial do Ministério da Saúde sobre essa política. Registramos a constatação a partir da página-resumo oficial; não lemos o texto integral da política, e a lista de eixos varia entre versões do documento.


Perguntas frequentes

Por que homens fazem menos terapia?

Uma revisão sistemática com 37 estudos indica que normas masculinas tradicionais agem em três frentes: nos sintomas e em como são expressos, na decisão de buscar ajuda e no manejo do quadro. E a barreira não é só à terapia: em 2019, apenas 30,1% de quem usou a Atenção Primária no Brasil eram homens.

Como é a primeira sessão de terapia?

É uma conversa, sentado, presencial ou por vídeo, conduzida pelo profissional. Ele pergunta o que te trouxe, desde quando, o que já tentou e como estão sono, apetite, trabalho e relações. Não sai diagnóstico ao final, e você não precisa contar tudo nem saber nomear o que sente.

Preciso saber explicar o que estou sentindo?

Não. Quando o vocabulário emocional é pouco treinado, o sofrimento aparece por outras vias — tensão muscular, dor de estômago, insônia, irritabilidade, queda de desempenho. Descrever o sintoma e a rotina já é material suficiente para o psicólogo trabalhar.

É melhor procurar psicólogo homem?

Se você tem preferência, ela é legítima e pode ser filtrada. Mas não há evidência brasileira de que o gênero do terapeuta determine o resultado. O que a pesquisa aponta como decisivo é a qualidade da relação — ser tratado como pessoa, não como caso.

Terapia substitui remédio?

Não são alternativas rivais: em muitos casos são combinados, e a decisão é clínica. Quem prescreve, ajusta e suspende medicação é médico. Nunca inicie, troque ou interrompa por conta própria.

Quantos brasileiros com depressão fazem terapia?

Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, apenas 18,9% dos brasileiros com diagnóstico de depressão faziam psicoterapia. O uso de medicamento nas duas semanas anteriores foi de 43,8% entre homens e 49,3% entre mulheres.


Quer entender melhor seus padrões?

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Leia também


Fontes: Seidler ZE, Dawes AJ, Rice SM, Oliffe JL, Dhillon HM — Clinical Psychology Review, 2016 · IBGE — releases da Pesquisa Nacional de Saúde 2019 (Atenção Primária; autoavaliação de saúde; depressão) · Conselho Federal de Psicologia — CensoPsi 2022 · Research Center da Conexa, levantamento divulgado em 2025 · Ministério da Saúde — página oficial Saúde do Homem (gov.br); Portaria GM/MS nº 1.944, de 27/08/2009 · Stige SH, Barca T, Lavik KO, Moltu C — Frontiers in Psychology, 2021;12:633663.

Este conteúdo é informativo, não fecha diagnóstico e não substitui avaliação profissional. Em sofrimento intenso, CVV 188 (telefone, 24h) · CAPS · Emergência, SAMU 192.

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